09 de Junho 2012

Proposição Preliminar: Vantagem e Desigualdade

  1. Em face da aplicação da vantagem diferencial nos estudos sobre desigualdades, o efeito de dessubjetivação decorrente da civilização técnica e já descrito por T. W. Adorno deve ser incluído em nossas análises como fator de explicação da recorrência do controle capitalista sobre as aspirações humanas ao bem-estar (controle chamado “mercadorização”).
  2. Embora a especificidade das desigualdades seja de ordem econômica, onde são recorrentes e, em sua dinâmica como traço característico da estrutura de classes concorram para o desenvolvimento capitalista, trata-se de um fenômeno de controle social que implica a psicologia coletiva.
  3. A simples descrição da procura e distribuição da vantagem diferencial nos estudos sobre desigualdades, além de injusta para com indivíduos e grupos por reduzi-los a qualidades reificadas como capital cultural, capital humano, capital social, reforça o estatus quo e a estandardização e deve ser questionada como fator de reificação dos papéis e posições sociais (veja meu comentário em  Resenha de A Construção Social da Realidade).

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Sumário

►Proposição 02

Reificação e função de representação no psiquismo da estrutura de classes

►Proposição 03

→A sabedoria de frieza na contradição do complexo de impotência

A Satisfação das necessidades e a disposição praticista

→A função conservadora da vantagem diferencial

→A função social de reconciliar os homens com as más condições de vida

→ A vantagem diferencial no esvaziamento das significações humanas

Proposição 04

►Os caminhos de uma crítica

►A Vantagem Diferencial como Condicionamento e a Produção do Complexo de Impotência

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Proposição 01: Vantagem e Preço

A vantagem diferencial não passa de uma conversão da categoria “preço”, e não tem alcance determinista sociológico. Ao esgotar-se na percepção de eficácia da imposição das desigualdades como um controle racional (domínio que se constitui por si e se desenvolve voltado para seu próprio equilíbrio lógico, tornando-se um controle cada vez mais denso), a vantagem diferencial não serve como critério de estratificação propriamente social por deixar de lado a perspectiva do fim da disparidade entre opulência e pobreza.

  1. Do ponto de vista da inserção de indivíduos e grupos, a vantagem diferencial se aplica a todas as coisas que contam pontos em um curriculum vitae ou em portfólios. Essa aplicação de caráter econômico se traduz nos conceitos de “capital social”, “capital humano” (inclui o “capital intelectual”) e “capital cultural”, utilizados como critérios para medir as desigualdades com alcance na economia (desigualdades de oportunidades, de níveis de vida, de acesso aos conhecimentos, bens e valores desejados, de realizações pelo trabalho, no exercício dos direitos sociais e das liberdades, etc.) e relacioná-las em hierarquias variadas, a fim de descrever um sistema estratificado característico de um dado regime capitalista (estratos econômicos e sociais).
  2. A aplicação preferencial da vantagem diferencial como categoria de análise do funcionamento capitalista refere-se à realização do valor econômico na comercialização dos produtos, implicando “otimização” do preço com a qualidade, em uma suposta e desejada relação de concorrência, e foi proposta pelo economista americano Michael E. Porter em seu influente livro “Vantagem Competitiva” (Competitive Advantage).
  3. Em face da eficiência na aplicação da vantagem diferencial para descrever o funcionamento de um sistema de estratos econômicos e sociais no âmbito de um regime capitalista, e a aparência de sociologia positiva que daí decorre, há que resgatar a aí esquecida vocação solidária da atividade do sociólogo e, por esta via, destacar que o enquadramento capitalista das desigualdades em um sistema que as reproduz indefinidamente, em nome do desenvolvimento, revela uma disposição negativa que deve ser criticada e denunciada como mercadorização das relações humanas.

 Proposição 02

Reificação e função de representação no psiquismo da estrutura de classes

 Na estrutura de classes, o psiquismo coletivo e individual revela três dimensões: a necessidade, o trabalho, a posse, e se desdobra a partir da reflexão coletiva exercida na divisão do trabalho social, projetando regras de análise efetiva.

Em relação ao coerente saber das hierarquias industriais e financeiras note-se que não é somente a categoria da vantagem diferencial que implica a qualidade. Antes disso, a busca por qualidade está presente na função de representação de toda a vida psíquica da estrutura de classes, penetrada pela reificação das qualidades e das atividades.  Aqui a reificação funciona como uma sorte de força material da análise efetiva da prática social nas sociedades capitalistas. Neste sentido, a função de representação constitui o psiquismo da classe burguesa.

  1. Isto se compreende ao levar em conta que, na estrutura de classes, o psiquismo coletivo e individual revela três dimensões já relacionadas por Henri Lefebvre: a necessidade, o trabalho, a posse, e se desdobra a partir da reflexão coletiva exercida na divisão do trabalho social, projetando regras de análise efetiva.
  2. Tal dissociação parcial dos três aspectos ou dimensões do psiquismo liga-se ao fato de que a burguesia começa por reduzir à necessidade as dimensões do homem no período chamado de acumulação primitiva, onde dominava o ascetismo, a abstinência, a economia em sentido estrito, ou seja, a acumulação propriamente dita, onde a classe burguesa perquiria com ardor e recalcava ao mesmo tempo o desejo da posse.
  3. Posto isso, saltou-se para a posse pura, que não se pode alcançar. Quer dizer, o psiquismo dissociado nos três aspectos, o psiquismo da estrutura de classes desenvolve-se como um aprofundamento na passagem de uma economia fundada sobre a acumulação na austeridade e pela abstinência, até uma economia de desperdício e despesas suntuosas – sem que isso correspondesse à satisfação de certas necessidades essenciais.

O processo de unilateralização

Não há maneira de examinar as desigualdades sociais sem levar em consideração o processo de unilateralização e a consequente supressão da reciprocidade que ligava os interesses privados e o interesse geral no espaço público.

A diferenciação do psiquismo da estrutura de classes decorre do fato de que a fetichização da mercadoria, do dinheiro, do capital, efetuando-se ao nível da economia, reage sobre a mediação constituída entre os interesses privados e o interesse geral, reage sobre o Estado como espaço público.

  1. Passa-se um processo de unilateralização que (a) implica a generalização das necessidades, em que, sob a cobertura dos aparelhos organizados do Estado, as classes se representam; (b) por essa via, leva à absorção pelo e no Estado dos interesses privados e do interesse geral, com a supressão da reciprocidade que os ligava.
  2.  Desta forma, os três aspectos do psiquismo se dissociam parcialmente e, assim distinguidos, “incumbem a classes e a indivíduos diferentes, os quais são representados como tais no Estado, e se representam assim na consciência e nas ideias” (H. Lefebvre). Daí o esquema pelo qual (a) há uma classe do trabalho; (b) incumbindo, todavia, a outros a posse, (c) com os mais desfavorecidos representando a necessidade em estado puro.
  3. Finalmente, compreende-se que, em boa sociologia, não há maneira de examinar as desigualdades sociais sem levar em consideração o processo de unilateralização e a consequente supressão da reciprocidade que ligava os interesses privados e o interesse geral no espaço público. As desigualdades expressam exatamente a reprodução desse processo de unilateralização característico da estrutura de classes.

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Proposição 03

A sabedoria de frieza na contradição do complexo de impotência

O saber da grande burguesia como economia do lucro esconde o dogma do sempre foi assim e sempre será igual, em que se resume a crença de que o homem não é capaz de Bem suficiente na Terra, portanto a melhoria do mundo se deforma em maldade[i].

 Uma vez incorporada a função de representação, e posto diante da percepção do contraste entre opulência e pobreza, o saber da burguesia não somente é feito na  generalização das necessidades, mas, por essa via, revela um acentuado distanciamento da solidariedade, como disposição ao compromisso pela diminuição das desigualdades.

  1. Trata-se de uma sabedoria de frieza bem delineada na atitude da grande burguesia ao afirmar soberanamente que defende a sobrevivência da economia do lucro, não por interesse próprio, mas por todos os homens; porque “se eles não tivessem que trabalhar tanto não saberiam o que fazer com o tempo livre”.
  2. Está-se, portanto, diante da ideologia como sabedoria de frieza, que carece de conteúdo cognitivo por coisificar não o mundo, mas os homens, tomando-os como dados exteriores.
  3. Dessa mesma sabedoria fria releva a ficção do futuro, releva o caráter fictício da preocupação com “a desgraça que poderia infringir ao homem a utopia realizada, ao desaparecerem do mundo a fome e a ansiedade”.
  4. Por sua vez, essa ficção do futuro esconde uma transposição da culpa pelas desigualdades do presente aos que ainda estão por nascer; esconde o dogma do sempre foi assim e sempre será igual, em que se resume a crença de que o homem não é capaz de Bem suficiente na Terra, a melhoria do mundo se deforma em maldade.
  5. Desta sorte, destaca-se um esquema vazio inevitável, a saber: a disposição de que (a) a transformação dos homens não podendo ser calculada, e escapando à imaginação antecipatória, (b) adota-se a escolha em substituí-la pela caricatura dos homens de hoje.

A satisfação das necessidades e a disposição praticista

Para que haja um sistema de desigualdades centrado na vantagem diferencial é preciso que seja constante a necessidade em produzir para as necessidades harmonizadas pelo Sempre Igual da produção de massa e da indústria cultural.

Mas não é tudo. Na desmontagem da ideologia como sabedoria de frieza, há também que desarticular a figura da “objetividade da satisfação”.

  1. O enquadramento das desigualdades em uma hierarquia de estratificação econômica e social pela categoria da vantagem diferencial não é transparente, mas opaca, não deixa passar luz sobre a racionalidade que as desigualdades atendem.
  2. Toma-se por suposto e admite-se suficiente a conhecida “lei” do mercado, a combinação de oferta e procura, estabelecida na projeção de que as necessidades sempre estarão lá e sempre serão cada vez mais. Ou seja, as desigualdades refletiriam não somente o estado da satisfação das necessidades, mas também o grau de necessidade em buscar a satisfação das necessidades. E isto, essa compulsão, seria uma característica objetiva do mercado (objetividade da satisfação), um efeito da combinação de oferta e procura capaz de impelir para a vantagem diferencial.
  3. Assim, para que haja um sistema de desigualdades centrado na vantagem diferencial é preciso que a necessidade em buscar a satisfação das necessidades seja constante, isto é, aumente cada vez mais (o mercado como um círculo vicioso em expansão que, de mais a mais, dirão servir de esquema a um correspondente crescimento sem limite do consumo).
  4. Mas a coisa não é bem assim. A compulsão à satisfação das necessidades implica a necessidade em produzir para as necessidades harmonizadas pelo Sempre Igual da produção de massa e da indústria cultural (incluindo nesta última, notadamente, as mídias como o rádio, o cinema, a televisão e os meios digitais), desconhecido o Sempre Igual na aplicação da vantagem diferencial.
  5. O equívoco desta aplicação faz passar a suposição de que, em outro contexto que não o mundo da comunicação e da produção de massa, tal compulsão à satisfação das necessidades possa permanecer atuando em corrente. Menos que um saber, trata-se de um dispositivo praticista[ii] impondo a adaptação das necessidades ao padrão harmonizado pelo Sempre Igual da produção de massa, ou silenciando, como algo inútil, as necessidades ainda não satisfeitas pela sociedade[iii].

 A função conservadora da vantagem diferencial.

 Neste ponto, deve-se ter em vista que uma das linhas de desarticulação da mentalidade ideológica implica desmontar a projeção de que a compulsão à satisfação possa permanecer atuando na nova sociedade.

  1. É falsa a crença de “objetividade da satisfação” com sua imagem de uma compulsão à satisfação das necessidades decorrendo automaticamente das supostas “leis do mercado”, como se não houvesse a harmonização das necessidades imposta pelo Sempre Igual da produção de massa e do mundo da comunicação.
  2. Ao operar silenciando como algo inútil as necessidades ainda não satisfeitas pela sociedade, e no contexto simbólico neoliberal – que preserva a equivocada suposição de “objetividade da satisfação” –, a aplicação da vantagem diferencial, em sua função conservadora, não permite se reconheça juntamente como estudo das desigualdades, a exigência de questionar o praticismo por trás daquele contexto.
  3. Desta forma, o estudo das desigualdades que dali resulta deixa passar inadvertidamente a falsa crença que atribui tal estado de coisas (suposição de “objetividade da satisfação”) ao predomínio da cultura material sobre a intelectual e, assim procedendo, traz recorrente impulso para o falso pressuposto de uma contraposição rígida entre a vida cultural e a vida prática.
  4. Toma relevo, em decorrência, o problema da neutralização da cultura pela sociedade de capitalismo organizado e produção de massa, recorrente no desprezo dos bens culturais da tradição.

 A função social de reconciliar os homens com as más condições de vida

  1. Quer dizer, a aplicação da vantagem diferencial como aspecto do condicionamento sobre as aspirações que o mundo administrado impõe, faz sobressair uma conexão entre a cultura massificada e a função social de reconciliar os homens com as más condições de vida, e afastá-los da crítica destas más condições.
  2.  Por sua vez, como aspecto da tendência à domesticação das classes subalternas pelo condicionamento, o mecanismo da vantagem diferencial na base das desigualdades permite a dócil subordinação em face do processo que, sem crítica, o mundo Sempre Igual da produção de massa se fixa cristalizado.
  3. Quer dizer, na base das desigualdades e sua reprodução, houvera uma distribuição e procura de vantagem diferencial impulsionando e “motivando” (condicionando) indivíduos e grupos a entrarem em competição uns com outros pelos benefícios que maior “capital social”, maior “capital humano” (inclui o “capital intelectual”) e maior “capital cultural” podem propiciar na hierarquia de posições econômicas e sociais sob um regime capitalista.
  4. Neste sentido preciso de imposição de uma hierarquia de estratos econômicos e sociais, o mecanismo da vantagem diferencial dá lugar à mercadorização das relações humanas, tanto em relação aos consumidores quanto aos produtores e assalariados, em maneira semelhante à contratação de mão de obra, onde os perfis humanos adquirem um preço e, conforme os estratos econômicos e sociais a que estão submetidos, as presenças das pessoas representam um retorno de lucro.
  5.   A questão crítica sobre a cultura de massa não se reduz a censurá-la porque dê demasiado ao homem, ou porque lhe torne a vida bastante segura; tampouco se reduz à afirmação, como invariável, da necessidade de intensificação e refinamento da consciência.

A vantagem diferencial no esvaziamento das significações humanas.

  1. Quando se toma por objeto o conflito entre o homem vivo e as petrificadas circunstâncias deve-se evitar construir humanidade e coisificação em rígida contradição (T. W. Adorno).
  2. Na promessa humanista da civilização, o humano inclui em si, junto com a contradição da coisificação, também a coisificação mesma. Daí porque o mecanismo da vantagem diferencial revela-se perverso: se impõe a partir do esvaziamento das significações humanas.
  3. A característica da condição humana em incluir em si a coisificação mesma vale não somente como a antítese que introduz a condição da rotura libertadora, mas vale também positivamente, isto é, vale como forma que realiza o abalo do sujeito. Em suma: Ao incluir em si a coisificação, a condição humana detém o exclusivo procedimento de objetivar a comoção subjetiva: inclui uma dessubjetivação (T. W. Adorno), que, de ordinário, se reconhece na ataraxia, alcançando a personalidade vazia de sentimento.
  4. O mecanismo da vantagem diferencial na base das desigualdades, como aspecto do condicionamento pelo Sempre Igual, faz exatamente por ocultar não somente que o indivíduo com sua possessão ou personalidade já é produto da coisificação, mas, por via de tal ocultação, afasta os homens do conhecimento da dessubjetivação, compreensão que os poderia levar à crítica do sistema.

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A apresentação deste trabalho junto a Cúpula dos Povos foi precedido dos seguintes textos:

Sociologia e Solidariedade – Razões para participar na Cúpula dos Povos < http://rede.cupuladospovos.org.br/2012/05/sociologia-e-solidariedade/ >

Relatório de Sociólogos sem Fronteiras SSF/RIO < http://rede.cupuladospovos.org.br/2012/06/relatorio-de-sociologos-sem-fronteiras-ssfrio/ >

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NOTAS

[i] Veja a conhecida obra de Max Weber sobre o alcance da ética protestante na formação do capitalismo.

[ii] Adorno, Theodor W. (1903 – 1969): “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. (Original em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft. Berlin, Frankfurt A.M. 1955). Utilizo neste texto vários conhecimentos tirados da sociologia crítica da cultura.

[iii] Veja Nota Complementar sobre a transformação das necessidades.