Entendemos que a obrigatoriedade do voto causa mal-estar na medida em que há o constrangimento no ato de votar e há o constrangimento em comparecer aos locais de votação.

Se no ato de votar cada um de nós é obrigado a comprovar que votou nas eleições anteriores para poder acessar a urna, no comparecimento aos locais de votação, por sua vez, cada um de nós é obrigado a aceitar a obrigatoriedade de ir votar, isto é, deve estar ciente e consciente de que pode comprovar seu comparecimento às eleições anteriores.

O mal-estar tem início no momento em que cada um de nós sente ser necessário estar consciente dessa obrigatoriedade constrangedora.

Como se sabe, o mal-estar se faz sentir na experiência de cada um lá onde a domesticação do outro penetra na formação das mentalidades. Quer dizer, sempre que os amparos à afirmação do indivíduo, notadamente a psicologia, deixam de vigorar ou simplesmente mudam de função e, ao invés de suscitá-la, passam a reprimir a afirmação individual positiva, mais ou menos consciente da liberdade, pode-se constatar o mal-estar – seja como decaimento ou falta de vitalidade, seja como inquietação moral.

Objetivamente, o mal-estar faz parte do processus em que, por um desenvolvimento posterior, os indivíduos se tornam condicionados socialmente, equiparados ao sistema dominante na ambiência em que tomam parte. É este processus de domesticação que se observa no regime do voto obrigatório, em tal modo que o argumento estatal da “obrigatoriedade / absenteísmo” vem a ter eco nos indivíduos, tornando-se um standard da mentalidade desse sistema.

Mas não é tudo. O mal-estar se agrava, torna-se consciente quando cada um de nós é provocado a refletir sobre sua relação com o voto obrigatório, formar sua opinião a respeito de si como eleitor. É quando o sentimento de impotência fala mais alto: posso me opor à ordem?  Tal o lugar psicológico da ideologia da obrigatoriedade como mistificação da impotência.

De fato, o mito do absenteísmo, só toma corpo como argumento do povo ausente porque cada um padece o sentimento da impotência ante a obrigatoriedade constrangedora e, então, faz eco à proposição de que o voto deve ser obrigatório porque o povo precisa aprender a votar.

E isso é assim porque há uma inversão no lugar psicológico da ideologia.

É porque o eleitor encontrou-se impotente para exercer seu voto em liberdade de expressão, devido às circunstâncias históricas da hegemonia, que, tende participado da defesa das eleições diretas (caso do Brasil) ele passou a fazer eco ao argumento absenteísta e, por esta via de recorrência, submeteu-se, subordinou-se, configurando-se uma psicologia da obediência na base do sistema do voto obrigatório.

Daí o agravamento do mal-estar: constrangimento no ato, constrangimento na presença, constrangimento na aceitação reflexiva do…constrangimento.

Textos de referência:

Estatus e expectativas de cidadania

A identificação participativa dos eleitores

O imbróglio do voto obrigatório

A Crítica do Voto Obrigatório Forçado

O Eleitor, a Democracia e o Voto Obrigatório no Brasil

Divergence on Article 21 of the Universal Declaration of Human Rights

SSF/RIO celebra com palestra o Dia Internacional da Democracia (ONU A/RES/62/7)

Slides da palestra publicados em Think Tank for Global Sociology

Palestra de sociologia sobre a Questão do voto obrigatório forçado 

Inscrição para Certificado de Participação em Palestra de SSF/RIO 

Perfil Google do autor Jacob (J.) Lumier.pdf

Artigos jornalísticos de Jacob (J.) Lumier em Ciranda da Informação

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