Linhas para Conciliar liberdade de iniciativa e solidariedade

(Pensar a economia solidária com independência em face do mercado e do Estado).

 

Uma das fraquezas da economia social e solidária consiste em não ter pensado seus modelos alternativos mais além dos termos locais sem jamais conseguir reencontrar o nível da totalidade social.

Terá sido para responder à emergência de imensos problemas sociais engendrados pelo desenvolvimento da economia capitalista que os coletivos de operários conceberam e puseram em obra os modos de organização originais tais como os movimentos mutualistas, as caixas de assistência ou auxílio mútuo e as cooperativas. Terá sido igualmente essa questão social que mais tarde forneceu a impulsão principal ao desenvolvimento da sociologia. A primeira grande obra de Durkheim intitula-se De la Division du Travail Social, elabora sobre as formas de solidariedade social e distingue solidariedade orgânica e solidariedade mecânica.

A “economia social” ou as variantes que não são sinônimos, mas que lhe são aparentadas como “economia solidária”, “economia não mercantil”, etc., apresentam historicamente uma forma de atividade econômica que contrasta com o funcionamento da economia dominante.

Por contraste em face da economia capitalista de mercado, a economia social e solidária não visa segregar o lucro, mas, antes disso, visa produzir os bens e os serviços que têm um valor de uso inseparável de um valor ético. Desta forma, ela revira a relação entre valor de uso e valor de troca que caracterizam a economia dominante.

A economia social, a economia solidária, não mercadorizada… apresentam as formas da economia alternativa que não seguiram tampouco a via do socialismo marxista administrada pelo poder centralizado de um Estado. Provavelmente sofreram restrições em sua audiência e influência devido à bipolarização entre o liberalismo econômico e político, por um lado, e a economia administrada pelo Estado, por outro lado.

Certamente nisso consiste seu mérito: pensar uma atividade organizada ao nível da sociedade civil pela livre cooperação dos indivíduos, sem nada ceder ao plano dos direitos do homem e do indivíduo.

Por contra, uma das fraquezas da economia social e solidária consiste em não ter pensado seus modelos alternativos mais além dos termos locais sem jamais conseguir reencontrar o nível da totalidade social.

Uma vez que seu rival centralizador ou estatista veio abaixo com o muro de Berlim, e se quiserem escapar aos desgastes sociais que a economia capitalista de mercado continua como jamais a produzir, será pelo lado daquelas concepções e experiências de economia solidária que se devem orientar para ali encontrar os germes de uma economia alternativa.

Trilhando este caminho, se terá mais chance para conciliar as liberdades de iniciativa em qualquer campo e os direitos sociais, que devem ser pensados não mais como reivindicações em relação ao Estado, mas como uma exigência de solidariedade oposta a todos.

Logo, será preciso aliar a liberdade dos indivíduos em estabelecerem vínculos entre si, segundo suas afinidades eletivas e seus interesses ou projetos comuns, que caracterizam “a sociedade dos indivíduos” desejada na tradição liberal, por um lado, e, por outro lado, a obrigação coletiva de integração dos membros da comunidade nas condições de dignidade e de igualdade.

Solidariedade e responsabilidade são os valores chaves de uma organização da sociedade por ela mesma (uma autogestão). Uma sociedade que resgatará finalmente uma parte da soberania que ela houve por abandonar à logica desprendida da economia capitalista, e à qual ela assim se alienou.

É igualmente em uma justa articulação desses valores que poderão se combinar a mobilização das energias reunidas em torno de projetos comuns, por um lado, e por outro lado, se poderiam levar em conta todos aqueles que, por qualquer razão, não se sentem envolvidos nesses projetos.  A economia social e solidária poderia oferecer tal organização que mistura a dimensão social e o elemento de comunidade, de tal sorte que a maioria não exerça sua tirania de grande número a respeito da minoria. Uma exigência conforme ao respeito dos direitos do homem e do indivíduo na sociedade.

Fonte: Réintégrer le social dans l’économie

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