►O espírito sociológico não pode ser facilmente extinto.

O progresso dialético governa nossas carreiras individuais assim como nossa disciplina coletiva. A paixão original pela justiça social, igualdade econômica, direitos humanos, meio ambiente sustentável, liberdade política, ou simplesmente um mundo melhor, que atraiu tantos de nós à sociologia, está limitada pela busca de credenciais acadêmicas. O progresso tornou-se a bateria das técnicas disciplinatórias – cursos padronizados, listas de leituras oficiais, hierarquias burocráticas, exames intensivos, resenhas da literatura, dissertações sobre encomenda, julgamento de publicações, o todo poderoso CV, a procura por trabalho, a permissão de acesso a arquivos, e o policiamento aos colegas e sucessores para certificar que todos marchamos em bloco. Ainda, apesar das pressões normatizadoras das carreiras, o ímpeto moral originário é raramente banido, o espírito sociológico não pode ser facilmente extinto.

►A promessa e o desafio da sociologia pública é o complemento e não a negação da sociologia profissional.

As constrições, no entanto, à disciplina – tanto no sentido individual como coletivo da palavra – gerou seus frutos. Como bem assinalou o amigo Presidente de ISA, Michael Burawoy, nós passamos um século construindo o conhecimento profissional, traduzindo o senso comum para a ciência, para que agora, nós estejamos mais do que preparados para embarcar numa sistemática retro-tradução, levando o conhecimento de volta àqueles que foram a sua fonte, construindo questões públicas a partir de problemas privados, e assim regenerando a fibra moral da sociologia. Nisso consiste a promessa e o desafio da sociologia pública, o complemento e não a negação da sociologia profissional.

Se o ponto de vista da economia é o mercado e sua expansão, e o ponto de vista da ciência

política é o Estado e a garantia da estabilidade política, então o ponto de vista da sociologia é a sociedade civil e a defesa do social. Em tempos de tirania do mercado e despotismo estatal, a sociologia – em particular sua face pública – defende os interesses da humanidade.

 ►Quando a sociedade civil floresce – Perestroika ou fins do Apartheid na África do Sul –o mesmo acontece à sociologia.

 Mas o que é sociedade civil? Podemos defini-la como um produto do capitalismo ocidental de fins do século XIX que produziu associações, movimentos e públicos que eram externos tanto ao Estado como à economia – partidos políticos, sindicatos, educação escolar, comunidades de fé, mídia impressa e uma variedade de organizações voluntárias. Esse conglomerado de vida associativa é o único ponto de vista da sociologia, de forma que quando ele desaparece a sociologia desaparece também. Quando a sociedade civil floresce – Perestroika ou fins do Apartheid na África do Sul –o mesmo acontece à sociologia.

A sociologia pode estar conectada à sociedade por um cordão umbilical, mas, obviamente, isso não significa que a sociologia estuda apenas a sociedade civil. Longe disso. Ela estuda o Estado ou a economia sobre o ponto de vista da sociedade civil.

►A sociedade civil tem muito de um terreno de contestação, mas mesmo assim, é o melhor terreno para a defesa da humanidade.

Nos últimos trinta anos, a sociedade civil tem sido colonizada e cooptada pelos mercados e pelos Estados. E mais, a oposição a essas forças gêmeas vem, se realmente vem, da sociedade civil, entendida em sua expressão local, nacional e transnacional. Nesse sentido, a afiliação da sociologia à sociedade civil, ou seja, à sociologia pública, representa os interesses da humanidade – interesses em manter acuados tanto o despotismo estatal como a tirania do mercado.

O campo da sociologia também é dividido. A sociedade civil, afinal de contas, não é nenhum comunitarismo harmonioso, mas é cindida por segregações, dominações e explorações. Historicamente, a sociedade civil tem sido branca e masculina. Quando foi se tornando mais inclusiva, ela foi invadida pelo Estado e pelo mercado, o que se refletiu na sociologia pelo uso acrítico de conceitos tais como capital social. A sociedade civil tem muito de um terreno de contestação, mas mesmo assim, é o melhor terreno para a defesa da humanidade – uma defesa que seria auxiliada pelo estímulo de uma sociologia pública de matriz crítica.

Texto de Referência: POR UMA SOCIOLOGIA PÚBLICA, Michael Burawoy
Palestra de abertura da Associação Americana de Sociologia – ASA, 2004. Artigo publicado
originalmente na American Sociological Review Vol.70, no.1, February 2005, pp.4-28. Publicado
também na British Journal of Sociology vol 56, no. 2, 2005, pp. 259-294. Tradução do
original, Rui Gomes de Mattos de Mesquita. Tecle aqui para acessar o texto em PDF

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