Apresentação e Introdução do livro Curso de Sociologia do Conhecimento – Texto 03

Curso de Sociologia do Conhecimento – Texto 03capa Curso texto 03

Comentários críticos e Observações de leitura em continuação aos TEXTOS 01 e 02 

Autor: Lumier, Jacob (J.)Jota 2013

Autor de Ensayos Sociológicos difundidos junto a la Web de la Organización de Estados Iberoamericanos para la educación, la ciencia y la cultura – OEI y en la Web Domínio Público, del Ministerio de Educación de Brasil – MEC

Editado por Bubok Publishing S.L.

Impreso en España

Contém notas, citações bibliográficas e sumário

Novembro 2013, 126 págs.

1. Comunicação Social.  2. Teoria Sociológica

Produção de e-book:

Websitio Leituras do Século XX – PLSV:

Literatura Digital

http://www.leiturasjlumierautor.pro.br

©2013 by Jacob (J.) Lumier

Todos os Direitos Reservados

Rio de Janeiro, Novembro de 2013

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Epígrafe

 No realismo de Saint-Simon, a sociologia deve manter o paralelismo e a interpenetração dos modos de produção material e dos sistemas de conhecimento, que são afinal tão-só aspectos parciais dos “regimes” ou, como diríamos hoje, tipos de estruturas sociais.

Apresentação

O relativismo sociológico é dialético e exige um esforço para ser adequadamente explicitado em sua complexidade devido ao problema do falso saber.

Algumas vezes, por exemplo, em razão de não atribuir valor ao conhecimento nem justificá-lo, a sociologia do conhecimento é rotulada equivocadamente como ceticismo e nihilismo, supostamente voltada para invalidar todo o saber ou diminuir o seu valor.

Verão neste ensaio que, seguindo o ensinamento de Georges Gurvitch (1894-1965) e ao contrário de seus opositores, a sociologia estuda o conhecimento em sua efetividade como regulamentação social, em conjunto com as demais obras de civilização como o direito, a moral, a educação e, neste marco, questiona as préconceituações e o dogmatismo metodológico [i].

Além disso, a sociologia oferece como contribuição à epistemologia suas pesquisas sobre as variações do papel efetivo do saber nos diferentes tipos de estruturas sociais.  Seu instrumental operativo de análise e explicação não implica projetar uma epistemologia própria, nem atribuição prévia de valor, mas é elaborado com o método dialético e repele qualquer juízo filosófico prévio à análise.

Em consequência, não há cabimento em rotular a sociologia do conhecimento.

Sem embargo, no estudo dos coeficientes pragmáticos, o sociólogo descobre o problema da veracidade ou não de uma multiplicidade quase infinita de perspectivas do conhecimento”, “ideológicas”, “utópicas”, “mitológicas”, etc., diferenciadas entre o saber meramente adequado (falso saber, reflexo dos papéis sociais) e o seu quadro social. Só a epistemologia dirá se tais perspectivas são igualmente válidas, ou se algumas delas o são menos que outras e poderiam designar-se “má interpretação”.

O presente trabalho introduz o estudo dos coeficientes pragmáticos do conhecimento; situa os aspectos do falso saber, suas implicações inclusive no psiquismo da estrutura de classes, e põe em relevo que, antes de vincular-se a uma epistemologia, a sociologia tem por indispensável a dialética complexa, cujos procedimentos lhe são imprescindíveis.

Finalmente, o aproveitamento deste trabalho tem por pressuposto a leitura dos Textos 01 e 02 do atual Curso de Sociologia.

Rio de Janeiro, 18 de Outubro 2013

Jacob (J.) Lumier

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Sumário

Epígrafe        7

Apresentação          9

INTRODUÇÃO        15

Sociologia e Relativismo   15

Dialética experimental e relativista         15

O elemento especulativo   18

As especulações arriscadas         20

O conhecimento em correlações 22

PARTE 01     27

Falso saber e conhecimento espontâneo         27

Conhecimento espontâneo          29

O saber pode repetir-se     30

Ambiguidade da função simbólica         30

Os tempos sociais múltiplos         32

Visões de mundo e sociologia     32

O culturalismo abstrato      35

Os tipos ideais weberianos           37

A orientação de teoria dinâmica  39

O primeiro aspecto do método sociológico        39

O segundo aspecto do método sociológico      41

Problema dos tipos sociológicos 41

A objeção dos leigos          42

Hermenêutica extra-sociológica  42

Competência da sociologia          43

O teórico e o pragmático    44

O desvio contínuo do conceitual 46

Os opositores da sociologia          47

A suposta “orientação radical”     52

Planejamento da pesquisa científica     56

Má Interpretação e Falso saber    57

A incompreensão do público       61

PARTE 02       65

O Falso Saber e o Psiquismo da Estrutura de Classes          65

Um processo de unilateralização            66

As Três dimensões do Psiquismo           67

Falso saber e personificação do capital 71

A imanência recíproca       72

A Imitação e as Relações com Outrem   75

Os fenômenos da psicologia coletiva     77

Uma crença sociológica    80

Ciência dos Costumes e Sociologia       83

Uma metamoral semi-sociológica           86

Realismo de Saint-Simon 87

Liberdade humana 90

O princípio de obediência à ordem         92

O Relativismo Sociológico -2       94

A Sociologia de Karl Marx 98

Epistemologia e Sociologia          100

Os sistemas cognitivos      103

Notas de Fim            111

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Introdução:

Sociologia e Relativismo

O relativismo sociológico é dialético e exige um esforço para ser adequadamente explicitado em sua complexidade.

Algumas vezes, por exemplo, em razão de não atribuir valor ao conhecimento nem justificá-lo, a sociologia do conhecimento é tomada equivocadamente como ceticismo e nihilismo, supostamente voltada para invalidar todo o saber ou diminuir o seu valor, como se essa disciplina fosse contrária ou cultivasse a pretensão descabida em substituir-se à epistemologia. Nada mais deslocado, embora seja certo que não haja competição e que os raciocínios axiomáticos, por dispensarem explicação, sejam repelidos.

Dialética experimental e relativista

Sem embargo, a sociologia é uma disciplina de conhecimento científico, apresenta-se como tal e, nesse quadro preciso, elabora as suas orientações como teoria determinista. Seu instrumental operativo de análise e explicação sociológica não implica projetar uma epistemologia própria, nem atribuição prévia de valor, mas é elaborado com o método dialético devidamente informado com os resultados divulgados em 1947 e 1948 pelos cientistas da natureza, na revista internacional Dialectica, então lançada na Europa [ii].

Entenderam que o processamento dialético é essencialmente depuração de um conhecimento sob a pressão de uma experiência com a qual ele se defronta, implicando o vaivém incessante entre o especulativo e o experimental, de tal sorte que o intuitivo e o construtivo estão compreendidos em uma complementaridade [iii].

Essa introdução da dialética nas ciências exatas foi feita em relação ao seguinte: (a)- para abrir um acesso em direção ao que é escondido, ao que é dificilmente possuível (dificilmente designável ou assinalável); (b)- para renovar experiência e experimentação; (c)- para tornar essencialmente impossível a esclerose dos quadros operativos.

Portanto, uma dialética que não é nem arte de discutir e de enganar, nem um meio de fazer a apologia de posições filosóficas preconcebidas – sejam elas denominadas racionalismo, idealismo, criticismo, espiritualismo, materialismo, fenomenologia, existencialismo. Tal é a dialética experimental e relativista, recorrendo à especulação para melhor adaptar os objetos do conhecimento às profundezas do real [iv].

A mesma orientação vale para um importante filósofo da cultura científica como Gastón Bachelard, quem começou a introduzir a dialética complexa desde o ano de 1936 [v] e notou que a dialética é ligada a procedimentos operativos que tornam relativo o aparelho conceitual de toda a ciência.

Sem embargo, o único caminho para escapar ao dogmatismo e aos posicionamentos axiomáticos em sociologia, como disciplina científica, é a distinção entre vários procedimentos operativos de dialetização ou clarificação dialética (“éclairage”), os quais, relevando todos do método dialético, são aplicáveis de várias maneiras, seja de maneira exclusiva, de maneira concorrente, ou de maneira conjunta, como no caso do estudo das relações entre atitudes  individuais e atitudes coletivas, que exige a consideração de todas as possibilidades de relações dialéticas.

O elemento especulativo

Podem ver que, embora tenha na acentuação do elemento racional uma exclusividade sua, o conhecimento científico enseja a formação de equilíbrio do positivo e do especulativo, assim como do simbólico e do adequado.

Daí que a teoria sociológica incorpore em sua positividade o elemento especulativo.

Aliás, em relação à dicotomia do conhecimento positivo e do conhecimento especulativo, o enfoque sociológico resgata a relevância das “especulações arriscadas” na história dos descobrimentos científicos, notando que estes se fizeram graças a especulações verificadas depois.

Desse ponto de vista põe em relevo o seguinte:

(a)- o grave erro que consiste em assimilar o conhecimento positivo ao conhecimento empírico e o conhecimento especulativo ao conhecimento conceitual, já que, em condições favoráveis o conhecimento empírico pode converter-se em conhecimento especulativo, e o conhecimento conceitual revelar-se positivo; (b)- o equívoco em se compreender o positivo como a recusa em arriscar novas hipóteses, reservando-se ao conhecimento especulativo a aptidão para tomar iniciativas novas; (c)- o conhecimento de senso comum, por um lado e, por outro lado, o conhecimento perceptivo do mundo exterior são os que tendem até o positivo no sentido de fidelidade às tradições, aos estereótipos ou à prática; (d)- o conhecimento filosófico e o conhecimento técnico, por um lado, e o conhecimento científico, por outro lado, favorecem a forma especulativa do conhecimento mais do que a sua forma positiva[vi] .

Nota, enfim, que a valoração das especulações arriscadas, que fazem avançar em direções desconhecidas, tem lugar em face de uma compreensão limitada de que positivo é o conhecimento prudente e conformista, contrário a orientar-se fora dos caminhos já explorados. Essa compreensão assim restrita é um legado da filosofia positivista da primeira metade do século XIX, cujo equívoco foi pretender que o conhecimento científico só podia ser positivo [vii] e não especulativo.

Embora o conhecimento especulativo com suas intuições, conjecturas e hipóteses seja mais suscetível aos simbolismos, mitologias e utopias do que a forma positiva, devem ter em conta que, nesta última, revela-se um conhecimento racional, calculador e adequado, que guarda o equilíbrio do especulativo e do próprio elemento positivo.

As especulações arriscadas

Em face do que precede, podem compreender que a teoria sociológica é algumas vezes confundida ao ceticismo e ao nihilismo exatamente porque adota especulações arriscadas para organizar o campo de aplicação da dialética nesta matéria.

Recompor o todo pela aplicação do método dialético empírico realista – sobretudo pela aplicação da reciprocidade de perspectivas entre o Eu e o objeto – significa aceitar a evidência no trabalho intelectual de que, cabe repetir, o compromisso inelutável de qualquer existência em situações sociais múltiplas e antinômicas (incluindo a chamada “intenção humana valorativa”) não pode ser posto em relevo, não pode ascender à percepção ou à tomada de consciência senão graças aos procedimentos dialéticos operativos da reciprocidade de perspectiva, implicando a tomada de risco para a realização da obra do conhecimento [viii].

Como sabem, e foi comentado no Texto 01 deste Curso, a sociologia do conhecimento derruba o preconceito de que os juízos especialmente cognitivos devem ter validade universal. Sua conjectura fundamental é de que a validade de um juízo nunca é universal, e se refere a um quadro de referência preciso que frequentemente corresponde aos quadros sociais. Tal é a sua especulação arriscada fundamental, que será verificada depois.

Para essa conjectura, concorre a constatação de que até mesmo os filósofos mais dogmáticos distinguem dois ou três gêneros do conhecimento: o conhecimento filosófico, o conhecimento científico e o conhecimento técnico, que, como classes do conhecimento, se impõe cada um como um quadro de referência, eliminando assim o dogma da validade universal dos juízos.

Daí falarem das verdades do conhecimento técnico, as do conhecimento científico, tanto quanto das verdades do conhecimento filosófico, diferentes.

O conhecimento em correlações

Nesse marco conjectural, a fim de preparar o tópico posterior sobre o problema do falso saber, cabe pôr ao dia o que foi dito no Texto 01 em vista de explicitar a procedência histórica e intelectual da pesquisa do conhecimento em correlações funcionais, especialmente nos tipos de sociedades globais construídos com base em materiais historiográficos.

Com efeito, o conhecimento tomado desde sua tendência a ser coletivo pode definir-se como “participação de uma realidade a uma outra” sem que nesta outra se produza qualquer modificação.  É o sujeito cognoscente que sofre alterações em virtude do conhecimento, ou seja, são transformados os próprios quadros sociais que comportam e atualizam o conhecimento em correlações, por efetividade destas.

Max Scheler insistiu no fato de a cada tipo de sociedade, a cada grupo, a cada ligação social, a cada era de civilização se oferecer um setor diferente do mundo infinito dos valores e do “logos”, assim como uma ordem das realidades com particular relevo conduzindo à necessidade da colaboração de todos os quadros sociais e de todos os indivíduos para chegar a uma visão de conjuntos.

Na sequência dessa proposição, a sociologia incorpora em base concreta as duas descobertas fundamentais de Max Scheler para chegar à descrição dos sistemas cognitivos, seguinte: (a)- a multiplicidade dos gêneros de conhecimento e, (b)- a diferente intensidade de ligação entre esses gêneros de conhecimento e os quadros sociais.

Quer dizer, a cada tipo de sociedade, a cada grupo, a cada ligação social, a cada era de civilização se oferece um setor diferente da multiplicidade dos gêneros de conhecimento.

Se oferece igualmente uma intensidade diferente de ligação entre gêneros de conhecimento e quadros sociais, de que surgem as hierarquias formadoras dos sistemas cognitivos.  

A sociologia das formas e classes do conhecimento são desdobradas dessas duas linhas de pesquisa, como veremos nesta obra.

Daí, contrariando a orientação “causalista” do pioneiro Karl Mannheim [ix], fundador desta disciplina, e seus importantes seguidores, chega-se à formulação propriamente sociológica de que:

(a) – a relação entre quadro social e conhecimento não é geralmente uma ligação causal; (b) – não se pode afirmar nem que a sociologia do conhecimento institui a realidade social como causa e o conhecimento como efeito, nem que o conhecimento, como tal, age como causa sobre os quadros sociais. Por isso a colocação do conhecimento em perspectiva sociológica nada tem a ver em si própria com a afirmação de que um conhecimento é uma projeção ou um epifenômeno de um quadro social, ou ainda que é uma superestrutura ideológica. Trata-se, afinal, de verificar a coerência de um conhecimento, um estudo explicativo que não levanta a questão do condicionamento de uns em relação ao outro, mas limita-se a verificar seu paralelismo.

Os símbolos sociais só em parte exprimem os conteúdos. São presenças intencionalmente introduzidas e invocadas para indicar carências. Impulso para a participação direta nem tanto no conteúdo (ideias, valores), mas prioritariamente participação no simbolizado (lugar desejado, a significação em ausência).

Cabe notar que, sob esse paralelismo, ademais da dependência ao mesmo fenômeno social completo, como realidade particularmente qualitativa e contingente em mudança, pode surgir a autonomia do simbolizado como lugar desejado a respeito do próprio símbolo como mediador, um aspecto da antecipação no presente de um tempo futuro ou “um futuro atual”  [x] (participação direta no simbolizado [xi]): como verão adiante, a ambiguidade da função simbólica (os símbolos expressam as “ausências invocadas” apenas parcialmente, de maneira que o lugar desejado nunca é inteiramente direcionado nos símbolos, mas é apenas uma participação mútua) não somente tem repercussão na afirmação do conhecimento em correlações funcionais, mas penetra a efetividade do mesmo como regulamentação social [xii].   

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Notas


[i] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, in Gurvitch et al.:  “Tratado de Sociologia”, Vol. II, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, pp.145 a 189 (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1960).

[ii] Gurvitch, Georges (1894-1965):“Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science.  Veja também : Editorial board of dialectica : « Dialectica – Philosophy Journal », Suisse, Edited By: Marcel Weber and Philipp Blum – Online – ISSN: 1746-8361  link: http://onlinelibrary.wiley.com/journal/10.1111/(ISSN)1746-8361

Dialectica é uma Revista internacional de filosofia do conhecimento fundada em 1947 por Ferdinand Gonseth, Gaston Bachelard et Paul Bernays.

[iii] O matemático e lógico F.Gonseth, insistiu, nas ciências exatas modernas, sobre o vaivém incessante entre o especulativo e o experimental, e sobre o fato de que, em matemáticas, o infinitamente grande e o infinitamente pequeno se detêm e se pressupõem;  revelou que, nessa matéria, o intuitivo e o construtivo estavam compreendidos em uma dialética de complementaridade. Ibid, ibidem.

[iv] Basicamente, o que caracteriza a especulação é o exercício de pesquisar mediante a reflexão por inferências cujas bases empíricas passam por mediações, em vista de obter a solução de contradições ou antinomias que não se confundem aos “extremos que se podem juntar” nem aos termos que não têm sentido um sem o outro como o pólo Norte e o pólo Sul, o Oriente e o Ocidente, o pólo positivo e o pólo negativo da corrente elétrica, o branco e o negro, o alto e o baixo, o dia e a noite, o quente e o frio, o inverno e o verão, a direita e a esquerda, etc.,. Nesses casos, os “procedimentos discursivos” se revelam inteiramente suficientes. Na clarificação dialética, por sua vez, se trata de desvelar a aparência de uma exclusão recíproca dos termos ou dos elementos contrários que se revelam como duplos se afirmando uns em função dos outros e desse fato participam dos mesmos conjuntos. Na sociologia os tipos microssociais, os tipos de agrupamentos, os tipos de classes sociais e os tipos de sociedades globais exigem a clarificação com o procedimento da complementaridade dialética, dentre outros.

[v] Bachelard, Gastón: “La Dialectique de la Durée”, Paris, Press Universitaire de France-PUF, 1972, 151 pp., 1ªedition 1936.

[vi] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289pp (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1966).

[vii] Gurvitch, Georges (1894-1965):“Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science.

[viii] “Tomada de Risco” no sentido examinado por Bachelard de que há uma indefinição básica quanto aos resultados possíveis e a obra com disciplina científica só é realizada na medida em que novos conhecimentos são conseguidos.

[ix] Mannheim, Karl: ‘Ideologia e Utopia: uma introdução à sociologia do conhecimento’, tradução Sérgio Santeiro, revisão César Guimarães, Rio de Janeiro, Zahar editor, 2ª edição, 1972, 330 pp. (1ª edição em Alemão, Bonn, F. Cohen, 1929; 2ª edição modificada em Inglês, 1936).

[x] O termo futuro atual designa que o saber em correlações funcionais é sempre prospectivo, é lançado para adiante, é o saber que alguém está a usar para se orientar no mundo, portanto em vias de se fazer (o contrário de estar feito). Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, in Gurvitch et al.:  “Tratado de Sociologia”, Vol. II, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, pp.145 a 189 (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1960), Cf. págs.157, e 168/9.

[xi] A constatação de que nas sociedades industriais há um abismo entre os homens e os significados” (Birnbaum, Norman: “A Crise da Sociedade Industrial”, trad. Octávio Cajado, São Paulo, editora Cultrix, 1973, 167pp. 1ª edição em Inglês, Londres, 1969, cf. pág.126) desdobra o aspecto dialético no estudo da função mediadora dos símbolos, a saber: a relação do símbolo ao conteúdo simbolizado (o lugar desejado, a significação em ausência) é necessariamente plena de ambiguidades.  Embora os símbolos sejam, como os signos são, substitutos que invocam ausências e que servem de mediadores, o fazem de maneira bem mais complexa e dialetizada do que os signos, já que essa mediação à qual servem, consistindo em orientar para a participação mútua dos agentes no simbolizado (lugar desejado) e reciprocamente, mostra que a característica essencial dos símbolos no dizer de Gurvitch (op.cit) consiste em “revelar velando e em velar revelando”.

Se os símbolos fossem substitutos assim tão claros como são os signos se confundiriam com estes, ao passo que os símbolos expressam as “ausências invocadas” apenas parcialmente, de maneira que o lugar desejado nunca é inteiramente direcionado nos símbolos, mas é apenas uma participação mútua.

[xii] Opositores questionam a dialética sociológica. Não levam em conta a correspondência e o paralelismo entre (a) o fato da autonomia do simbo- lizado a respeito do conteúdo (os símbolos suscitam os conceitos ou as ideias esquemáticas do conteúdo aos quais são chamados a expressar);

(b) a efetividade da experiência humana (vivida ou construída) ao produzir a negação do conceitual; (c) o fato que nenhuma comunicação simbólica pode ter lugar fora do psiquismo coletivo. Sabem que, em virtude de sua complexidade, a dialética em sociologia mostra não ser capaz de desalie- nar o falso saber. Em face dessa característica e, ao invés de aí reconhe- cerem a alta relevância das “especulações arriscadas”, os opositores apontam uma limitação, tomam por supérflua uma dialética que suposta-mente não dá garantia contra o falso e, desta forma, não colocaria suposta- mente o pensamento e a explicação no elemento de uma verdade que imaginam para além das mencionadas especulações arriscadas. Veja as críticas de Sartre contra Gurvitch em: Sartre, Jean Paul: ‘Critique de la Raison Dialectique – Tome I : théorie des ensambles pratiques (précedé de Questions de Méthode)’, Paris, Gallimard, 1960, 756 pp. Cf: págs.98.