Educação e saúde na história de América Latina

Reproduzo aqui o esclarecedor artigo do nosso amigo Alfredo Sirkis que imprime um trato refinado ao problema histórico revolucionário da conquista de educação e saúde na história de América Latina.

Duas revoluções, dois destinos.

 Artigo extraído do blog de Alfredo Sirkis
(publicado em 4/3 no Estadão)

Os recentes incidentes envolvendo a visita da blogueira cubana Yoani Sanches, hostilizada por turbas agressivas de “solidariedade com Cuba” foram também uma  oportunidade perdida para debater o argumento de que a ditadura “de esquerda” seria o inevitável preço a pagar pelos grandes “avanços sociais”.

É comum escutarmos que as restrições à liberdade de expressão e de imprensa, a ausência de eleições livres, de pluralismo político ou de alternância, a mais de meio século da revolução cubana,  se justificam pelas suas conquistas na educação e na saúde e pela ausência de fome e miséria absoluta na ilha. O argumento jamais se sustentou na comparação com outra revolução que a precedeu em onze anos: a da Costa Rica, de 1948,  que obteve notáveis avanços em educação e saúde e garantiu um padrão de vida muito mais elevado, sem o sacrifício das liberdades, do pluralismo, do respeito aos direitos humanos e de um judiciário independente.
 Hoje a maioria de sua população é de classe média,  seu salário mínimo é 15 vezes maior que o de Cuba, seu PIB e a sua renda per capita são os mais altos da região. Há três vezes menos suicídios que em Cuba. Costa Rica tem políticas ambientais e ecoturismo de referência internacional e ambiciona tornar-se o primeiro país do mundo carbono neutro.
  A revolução de 1948, liderada por Don Pepe Figueres, derrubou o regime oligárquico do presidente Teodoro Picado e do seu mentor político Rafael Calderón Guardia que fraudavam sistematicamente as eleições como na nossa velha república. Foi desencadeada em reação a um “autogolpe” –queimaram as listas com os resultados eleitorais privando da vitória o candidato progressista Otilio Ulate e assassinaram um dos líderes oposicionistas,  Carlos Luiz Valverde.
Detalhe curioso:  o pequeno partido comunista local, o PVP, apoiava ativamente o regime oligárquico. A desmobilização de suas milícias em troca da garantia aos direitos sindicais e da sua legalidade,  acertadas numa dramática negociação entre Figueres e seu secretário geral,  Manuel Mora, na floresta de  Ochamongo, foi decisiva para a relativamente incruenta vitória da revolução após 40 dias de combates. A junta revolucionária, liderada por Pepe Figueres,  nacionalizou os bancos para democratizar o crédito –até então exclusividade da burguesia compradora (importadora)–  permitindo desenvolver a agricultura e indústria.
 Investiu obsessivamente na educação,  instituiu a autonomia do judiciário. Dissolveu seu próprio exército revolucionário, depois de uma tentativa de golpe do então ministro da defesa Edgard Cardona, inconformado com o tratamento leniente dado por Pepe Figueres aos comunistas.  Isso não  o impediu de derrotar, com o povo em armas,  uma invasão do ditador Anastasio “Tacho” Somoza (o pai), da Nicarágua,  onde se haviam exilado Picado e Calderón. Ao final de dezoito meses,  Figueres entregou o governo a Otilio Ulate, legitimamente eleito nas eleições “meladas” do ano anterior, apesar de notórias divergências entre ambos.
 Voltou a sua fazenda Lucha sin Fin onde ficou até 1953 quando disputou democraticamente e foi eleito presidente. Cercada de ditaduras por todos os lados até anos recentes Costa Rica jamais deixou de promover eleições livres a cada quatro anos.
  Poderia ter sido assim em Cuba onze anos mais tarde?  Pepe apoiou Fidel com dinheiro e armas. Foram amigos mas romperam quando Fidel aliou-se ao bloco soviético.
O contexto da guerra fria –em 1948 nos primórdios, em  60 no  apogeu–   com uma quase imediata hostilidade norte-americana à revolução cubana fizeram a diferença,  bem como,  a personalidade de Fidel. Entre os líderes das duas revoluções ressaltam  diferenças de idade, origem social e experiência de vida: Pepe, filho de um modesto médico catalão, era pequeno fazendeiro,  tinha 42 anos ao liderar sua revolução. Conhecia bem os EUA onde estudara. Sua primeira esposa, Henrieta Boggs,  era americana. Ele sabia explorar com habilidade as contradições internas em Washington e nunca quis se aliar à URSS  embora tenha nacionalizado a United Fruit o flagelo das repúblicas bananeiras.
 Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era universitário quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois,  conheceu apenas a prisão, o exílio e Sierra Maestra.  Pepe era de ouvir, negociar e pactuar.  Fidel nasceu para mandar e ser obedecido.
 Com pouco sangue e sem paredón a  revolução de 1948 não figura no panteão histórico-jornalístico. É praticamente desconhecida ao contrário das revoluções trágicas ou das derrotas heroicas dos mártires, não importa o quão patéticos ou desavisados. Uma revolução com final feliz,   um país que a 65 anos “caiu numa democracia”  para nela permanecer, até hoje,  um  líder revolucionário que resolve abrir mão do poder para depois disputar eleições livres, em 1953 e 1970,  são decididamente, indignos do rol de eventos e personagens históricos de primeira linha…
Pepe, que gostava de definir-se como “socialista utópico”,  nunca cultivou Patria o Muerte ou outro necrófilo brado retumbante do gênero. Seus compatriotas, los ticos –os costarriquenhos–  pacíficos e cosmopolitas,  são com toda probabilidade mais felizes. No entanto,  a felicidade –gota de orvalho numa pétala de flor– pelos vistos não é um indicador relevante no fazer História do nosso tempo.
 Essa pacata democracia sexagenária, ainda que em terra de tantos vulcões, não evoca o menor romantismo, não vale sequer uma camiseta ou boina negra com estrelinha vermelha.  Mas constitui intenso objeto de desejo na “geração Y”, de Yoani, dos filhos daquela outra revolução, a tão exaltada em prosa e verso.
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Mais informação na Wikipédia, verbete Costa Rica