O Sistema Cognitivo do Capitalismo

Tópico do livro por Jacob J. Lumier intitulado   “Comunicação e Sociologia – Artigos Críticos -2ª Edição modificada” / Editor: Bubok Publishing S.L., Madrid /// ISBN papel: 978-84-9981-937-2 /// ISBN ebook: 978-84-9981-938-9
Coletânea de artigos – com notas, bibliografia e índice analítico eletrônico (sumário), Junho 2011, 143 págs.

Comunicação e Sociologia

 

►Chegamos ao estudo do sistema cognitivo das sociedades globais que dão à luz o capitalismo, e que, na Europa Ocidental, encontram sua correspondência nos séculos XVII e XVIII. O traço marcante aqui é o despertar do Estado na forma da monarquia absoluta participando ativamente do desenvolvimento do capitalismo nascente e, nessa e por essa atividade, tratando todos os problemas políticos sob seu aspecto econômico.

Daí que os historiadores e os economistas caracterizam a organização política dessa sociedade com o termo amplamente conhecido de “despotismo esclarecido”.

Todavia, o caráter particular desse tipo de sociedade, além dessa vinculação ao “Estado ressuscitado”, inclui os começos do maquinismo, as primeiras fases da industrialização, a transformação do trabalho em mercadoria, a aparição das classes sociais propriamente ditas (estrutura de classes). O diferencial aqui é que não se pode minimizar o papel do saber como fato social nesse e para esse tipo de estrutura, a reciprocidade de perspectivas que aqui se configura entre experiência e conhecimento.

Em sociologia do conhecimento só é possível ir além das explicações por correlações funcionais e buscar o máximo de coerência do processus de reestruturação como fundado numa causalidade singular, deixando o fato social do saber como epifenômeno, somente quando se está perante um caso de desacordo preciso de quadro social e saber.

Como se sabe, é das análises de Karl Marx que se tira o melhor exemplo dessa situação, notando-se que o saber da Economia Política clássica está em desacordo com o quadro da sociedade de classes ao qual pertence.

O diferencial é que não se pode minimizar o papel do saber como fato social nesse e para esse tipo de estrutura.

Nesses casos, se poderá estabelecer uma determinada mudança social como a causa particular de que a estrutura é o efeito, polarização esta que, aliás, muitos tentaram fazer apressadamente para este tipo de sociedade que dá à luz o capitalismo, atribuindo ao advento do maquinismo o papel de causa singular da mudança estrutural, o que excluiria o alcance ou a relevância do saber como fato social para a reestruturação desse tipo global.

Ao falar de “diminuição do desacordo”, o sociólogo tem em vista uma comparação com as sociedades feudais, em cujo tipo nota-se um desacordo cuja intensidade é um fato novo [i], a que se conjuga um pluralismo excepcional da estrutura em si. A explicação aqui se assenta no fato singular que se produz ao fim do regime feudal, quando se efetua a aliança dos monarcas feudais com as cidades francas ou abertas, as quais compraram sua liberdade ao Estado territorial, reanimando-o.

Desta forma, é a mudança social levando à reanimação do Estado que constitui o elemento máximo de coerência da teoria para as sociedades feudais, restando, então, nestas, o saber como fato social em estado preponderantemente espontâneo e difuso, sem que seja feito valer.

Por contra, tirado do seu sono por essa aliança singular, o Estado toma a forma da monarquia absoluta, como dizíamos, constituindo na análise sociológica um traço característico das sociedades globais que engendram o capitalismo.

O diferencial aqui é que não se pode minimizar como disse o papel do saber como fato social nesse e para esse tipo de estrutura, não se pode deixar de lado a reciprocidade de perspectivas que aqui se configura entre experiência e conhecimento.

Na Europa Ocidental, o século XVII e o XVIII correspondem a esse tipo de sociedade, já iniciada durante a segunda metade do século XVI, sobretudo na Grã-Bretanha.

Segundo a descrição de Gurvitch, na estrutura típica dessa sociedade global que dá à luz o capitalismo, notam-se as seguintes situações:

(1)- O predomínio do Estado territorial monárquico de grande envergadura, que atribui ao monarca o poder absoluto, e que se aliou com a burguesia das cidades e com a nobreza ligada à burocracia, dita nobreza de toga;

(2) – O Estado dá seu apoio aos plebeus burgueses, aos capitalistas industriais das manufaturas, aos comerciantes de envergadura internacional e, muito particularmente, aos banqueiros que, enriquecidos depois da descoberta do Novo Mundo, tornaram-se os seus credores;

(3) – Além disso, os apóia notadamente contra a nobreza de espada, contra os operários e os camponeses, substituindo assim a antiga hierarquia das dependências feudais por uma nova;

(4) – No começo, o Estado mantém as classes sociais bem controladas, considera a industrialização (isto é, o notado progresso na metalurgia e nos têxteis) e a promoção do capitalismo como os meios de reforçar seu próprio prestígio político, militar, financeiro e econômico. Sem embargo, logo desempenhará o que Gurvitch chama “papel de aprendiz de feiticeiro” e, em lugar de dominar as classes sociais, será dominado por elas.

(5) – Nota-se certo descompasso entre, por um lado, o aperfeiçoamento incessante dos modelos técnicos e econômicos, cuja importância aumenta nessa estrutura e, por outro lado, o fato de que (a) a organização da economia, prejudicada pelos vestígios das corporações de ofícios (vestígios pré-capitalistas), e (b) o movimento demográfico, ambos estão retardados a respeito das técnicas, assim como as invenções e suas aplicações não seguem uma curva de avanço regular.

6) – Nota-se que o fenômeno global dos conjuntos sociais é refreado pelo modo de operar dos estamentos não-produtivos e pelo marasmo do campo, que só se move por influência das cidades e do Estado;

(7) – Nota-se também, que esse traço refreado do fenômeno global dos conjuntos sociais como um todo pesa sobre o impulso do desenvolvimento técnico e industrial.

(8) – Quanto à divisão das classes sociais nascentes, notam-se nessa análise sociológica os seguintes aspectos:

(8.1) – que essa divisão, fazendo-lhes concorrência e fustigando-lhes desde dentro, está em oposição: (a)-à hierarquia oficial dos corpos constituídos, formada pela nobreza, clero, “estado simples” (plebeus burgueses) juntamente com os camponeses, estes últimos pagando direitos ao senhorio e dízimos; (b) – aos graus de nobreza; (c)-aos diferentes cargos, alguns dos quais eram comprados.

(8.2) – que as empresas econômicas novas de grande envergadura, manufaturas, fábricas, sociedades de comércio marítimo, bancos, favorecidos pela monarquia, se lhe tornam finalmente hostis, não aprovando nem a política de guerra, nem a manutenção dos privilégios da nobreza.

(9)- Os grupos tradicionais como a Igreja, por um lado, e a família conjugal-doméstica, por outro lado, começam a perder sua importância, apesar de sua resistência.

(10) – Verificam-se a acentuação das massas, favorecidas (a) pela política absolutista de nivelação dos interesses, combinada com (b) as ondas de população que afluem para as grandes cidades, e com (c) a desagregação da estrutura senhorial-feudal;

(11) – Nota-se grande desenvolvimento das relações com outrem ativo, favorecendo toda a classe de trocas e de pactos, embora travados que estavam pelos restos (a) do regime de privilégios, (b) os das barreiras entre ordens e corporações, e (c) pela ingerência do absolutismo dito “ilustrado” na vida econômica.

(12) – Quanto aos níveis em profundidade da realidade social notam-se, em primeiro lugar, duas classes de modelos: (a) os modelos idênticos às regras jurídicas, tomados como regulamentação minuciosa feita de cima para baixo, e (b) os modelos técnicos, estes nascidos das fábricas, exatamente como um aspecto do transtorno da vida econômica (especialização, planejamento, modernização), ambos inovadores; em segundo lugar, nota-se a base morfológico-demográfica, incluindo todo o mundo dos produtos, como estando ligada à necessidade de mão de obra e ao problema de seu recrutamento; e em terceiro lugar, notam-se os aparelhos organizados de toda a classe, cuja burocratização começa;

A expressão mais completa da civilização e da mentalidade própria dessa sociedade no seu apogeu é a “época das luzes”, que faz o homem confiar no seu êxito e no das suas empresas técnicas e industriais.

(13)- A enorme impulsão da divisão do trabalho técnico, que supera muito a divisão do trabalho social, sendo combinada ao maquinismo, tem por conseqüência uma produtividade sem precedentes em quantidade e em qualidade; a acumulação de riquezas, acelerada pelo descobrimento do Novo Mundo, alcança em tempo record grandes proporções, agravando os contrastes entre a pobreza e a opulência.

(14) – Na hierarquia das regulamentações sociais, o conhecimento e o direito estão na frente, e a educação em segundo lugar, liberando-se da tutela eclesiástica;

(15) – Se assiste à vitória do natural sobre o sobrenatural, da razão sobre toda a crença; bem como ao crescimento do individualismo em todos os campos, e ao nascimento da idéia do “progresso da consciência”, sendo a reter que a expressão mais completa da civilização e da mentalidade própria dessa sociedade no seu apogeu é a “época das luzes”, que faz o homem confiar no seu êxito e no das suas empresas técnicas e industriais.

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►Quanto ao saber como fato social para este tipo de estrutura e de sociedades globais que engendram o capitalismo, saber este cujo papel não se pode minimizar favorecendo as correlações funcionais, Gurvitch assinala que o primeiro lugar no sistema cognitivo é compartilhado pelo conhecimento filosófico e o conhecimento científico, que se completam mais do que competem.

Com efeito, o papel significativo do saber salta aos olhos. Basta traçar de inicio um esboço histórico do salto prodigioso da ciência desde a Renascença, cujos expoentes, como se sabe, são os seguintes: Copérnico (1473-1543), Kepler (1571-1630), Galileu (1564-1642), nos conhecimentos astronômicos; Newton (1643-1727) inventa o cálculo infinitesimal no mesmo momento em que Leibniz (1646-1716) também o faz de outra forma, ambos fundadores da Física mecânica; a química moderna nasce com Lavoisier (1743-1794); as ciências do homem se desenvolvem dividindo-se em muitos ramos, seguintes: a Economia Política é criada por Adam Smith e David Ricardo e, com outra forma, pelos fisiocratas; a ciência política se afirma com Hobbes, Spinoza, Locke, Montesquieu, Rousseau, os enciclopedistas, Condocert, e Destut de Tracy (Montesquieu já pressente o advento da sociologia).

Nota-se, igualmente, a reforma do ensino cada vez mais laico, a acelerar o desenvolvimento do conhecimento científico notadamente a partir de 1529, com a fundação do Collège de France. Todos os grandes filósofos participam das discussões científicas (com alguma reserva, Pascal e Malebranche) já que a laicização do saber filosófico, cada vez mais independente da teologia, favorece sua tendência a fazer das ciências a base de suas reflexões.

Nota-se, entretanto, que o contrário não se verifica, e os cientistas mostram pouco interesse pelo saber filosófico como tal. Mesmo assim, o prestígio do conhecimento filosófico está em que é o melhor colocado para defender a ciência contra a teologia e, além disso, são os filósofos quem amiúde emitem hipóteses verdadeiramente científicas, como Descartes e Leibniz.

Nesta descrição proporcionada pela análise de Gurvitch, o saber filosófico acolhe mais o racional sobre o místico, excetuando a Pascal, um pouco a Malebranche e a Spinoza, místico da racionalidade; da mesma maneira, acolhe mais o adequado sobre o simbólico e ainda favorece a combinação do conceitual e do empírico, do especulativo e do positivo e, finalmente, o predomínio da forma individual sobre a forma coletiva, esta última, por sua vez, muito relegada aqui, no saber filosófico.

O conhecimento científico, por sua vez, tem a acentuação do elemento racional como exclusiva sua; aqui, o conceitual predomina sobre o empírico e a forma coletiva é preponderante; nota-se a formação de equilíbrio do positivo e do especulativo, assim como do simbólico e do adequado.

A quebra do Antigo Regime foi muito mais espetacular do que as revoluções inglesa e holandesa ou do que as guerras religiosas e civis.

Quanto ao segundo lugar no sistema cognitivo dessas sociedades que dão à luz o capitalismo, corresponde ao conhecimento perceptivo do mundo exterior, com as seguintes características:

(1) – a rápida promoção desse conhecimento deve-se à criação de novos meios de comunicação, que acompanha a extensão do comércio em escala mundial, favorecendo o conhecimento dos oceanos e de continentes até então desconhecidos; além disso, o aumento e o melhoramento dos caminhos que cruzam os países ocidentais, favorecendo a maior circulação das diligências, permitiram comunicações relativamente rápidas;

(2) – todavia, a análise de Gurvitch considera mais importante as novas percepções e conceituações das amplitudes e dos tempos em que se encontra imbricado o mundo exterior, seguintes:

(2.1) – nota-se uma competição entre os tempos “adiantado a respeito de si” e o “tempo atrasado”, correspondendo a uma estrutura de uma só vez inovadora e anacrônica, competição esta que anuncia um tempo em que o passado, o presente e o porvir irão entrar em conflito rapidamente, numa situação explosiva que favorecerá o porvir, com o “tempo surpresa” ameaçando quebras nas poderosas organizações da superfície;

(2.2) – essa competição entre o tempo adiantado e o tempo atrasado aplica-se igualmente ao fenômeno social total global subjacente à estrutura, de tal sorte que encontramos, por um lado, que o conhecimento do mundo exterior, a vida econômica, as técnicas industriais, o comércio internacional, o saber filosófico, a burguesia e sua ideologia, estão essencialmente adiantados em relação à estrutura, enquanto que, por outro lado, a nobreza, o clero, a vida agrícola, o campesinato, estão atrasados a respeito da mesma. A própria monarquia absoluta está adiantada a respeito de suas iniciativas e atrasada quanto a sua organização e suas conseqüências.

(2.3) – Desta forma, Gurvitch avalia que a quebra do Antigo Regime foi muito mais espetacular do que as revoluções inglesa e holandesa ou do que as guerras religiosas e civis, incluindo nesta lista a guerra da independência nos Estados Unidos; e que esta quebra do antigo regime não se apagará jamais da memória coletiva das sociedades que virão.

(2.4) – Temos, então, que esses tempos e amplitudes em que se encontra imbricado o mundo exterior, embora rico em incógnitas e em possibilidades novas, se fazem particularmente mensuráveis com o lema da classe burguesa que toma consciência da sua existência: “tempo é dinheiro”, a que se junta: “todos os caminhos conduzem ao ouro, ou, pelo menos, ao dinheiro”.

Quer dizer, todas as amplitudes são apreciadas menos pelo sistema métrico e mais pelo tempo necessário para percorrê-las, decorrendo desta quantificação que o mundo exterior se torna um objeto de estudo científico.

Além disso, desse modo de apreciar as amplitudes pelo tempo necessário para percorrê-las decorre a posição de relevo alcançada conjuntamente pelo conhecimento perceptivo do mundo exterior e pelo saber científico, no sistema cognitivo do tipo de sociedades que dão à luz o capitalismo.

Nota-se que tal posição de relevo é muito mais marcante aqui do que em muitos outros tipos de sociedade, pois o saber científico prepara o salto que, na etapa seguinte do capitalismo, o levará ao primeiro lugar.

O conhecimento técnico levando ao maquinismo se encontra em relação direta não com as aquisições da ciência, mas com as melhorias de ordem prática.

No terceiro lugar desse sistema cognitivo vem o conhecimento técnico, que deu um salto considerável, e isto não só na indústria (ramos dos têxteis e da metalurgia), mas na navegação e na arte militar.

O aperfeiçoamento do conhecimento técnico levando ao maquinismo se encontra como disse em relação direta não com as aquisições da ciência, mas com as melhorias de ordem prática – como já fora assinalado por Adam Smith e Karl Marx, apesar de suas diferenças.

Quer dizer, Karl Marx tivera razão ao insistir no primeiro tomo de “O Capital” de que não são as invenções técnicas as que tiveram por resultado a profusão de fábricas, mas, pelo contrário, foi a divisão do trabalho técnico nas grandes fábricas cada vez mais numerosas a que criou a necessidade de técnicas mecanizadas e provocou assim a introdução das máquinas, tal como confirmado pelo estudo das técnicas industriais dos séculos XVII e XVIII [ii].

Por sua vez, tanto implícito ou espontâneo quanto explícito ou formulado (em proposições, aforismos, doutrinas), o conhecimento político ocupa o quarto lugar desse sistema cognitivo, ainda que possa parecer surpreendente essa colocação tão baixa em face do meio fértil em intrigas, constituído pelos grupos privilegiados no Antigo Regime.

Há que distinguir três aspectos seguintes:

(1) – o conhecimento político implícito está evidentemente estendido na corte, e que é função da rivalidade em três níveis: (a) – da nobreza de espada e da nobreza de toga; (b) – de toda a nobreza e da burguesia em ascensão; (c) – bem como da que se verifica entre as diferentes frações da burguesia: a industrial, a comercial, a financeira;

(2) – o conhecimento político espontâneo se encontra ausente no meio das classes populares, representadas pelos operários das fábricas e pelo “campesinato”, que, derrotados pelas mudanças de estruturas que nada lhes trazem de benefícios, não sabem o que fazer ou qual tática adotar em uma situação muito desfavorável, cabendo lembrar que a consciência de classe e a ideologia das classes sociais subalternas não se formarão antes do século XIX, e só se manifestarão muito depois das grandes comoções da Revolução francesa.

  A consciência de classe e a ideologia das classes sociais subalternas não se formarão antes do século XIX.

(3) – Na medida em que se mantém, o Antigo Regime necessita de uma política que não leva geralmente em conta os grupos de interesse, por privilegiados que sejam, quer dizer, as disputas políticas e, conseqüentemente, o conhecimento político das pessoas são de importância secundária para o absolutismo.

Por sua vez, esses grupos de interesses (os que têm futuro e os mais adiantados e clarividentes) encontram uma compensação na elaboração das doutrinas políticas, cujo esquema é o seguinte: (a) – na Inglaterra, Thomas Morus (“Utopia”, 1516) e Francis Bacon (“Nova Atlântida”, inconclusa), durante a Renascença; posteriormente, nos século XVII e XVIII, os escritos de Hobbes e Locke correspondem às aspirações da burguesia ascendente, como quadro social do conhecimento, que, finalmente, só então triunfará; (b) – na França: os fisiocratas, os enciclopedistas, Turgot, J. J. Rousseau, terão influência desde o começo e durante a revolução, e suas doutrinas tratam tanto do fim ideal quanto da tática a empregar para alcançá-lo, tipificando o conhecimento político formulado ou elaborado; (c) – na Holanda: o “Tratado Político” (1675-1677) de Spinoza faz pressentir segundo Gurvitch certos elementos do pensamento de Rousseau.

Nota-se que nas doutrinas políticas (e nas ideologias em que se inspiram), apesar do predomínio da forma racional, “o simbólico, o especulativo, o conceitual, e o individual são sempre muito acentuados”, mesmo naquelas doutrinas mais preocupadas pela racionalidade, pelo empirismo, pela objetividade, pela adequação.

Já no conhecimento político espontâneo, a forma racional se combina à forma empírica, estando igualados em importância o positivo e o individual[iii].

Quanto à sociologia do conhecimento de senso comum, aqui, neste tipo de sociedades globais dando à luz o capitalismo, conhecimento encontrado em penúltimo lugar, está marcado pela grande multiplicidade dos meios que lhe servem de quadro. Quer dizer, está consideravelmente confundido pelo seguinte: por um ambiente tão novo e imprevisto; pelo advento do começo do capitalismo e do maquinismo; pelo descobrimento do Novo Mundo; pela política absolutista de nivelação dos interesses; pelo debilitamento da igreja; pela afluência das grandes massas da população às cidades, etc.

Assim, esse conhecimento de senso comum se encontra disperso em vários meios, seguintes: (a) – entre os cortesãos, os representantes da nobreza de espada e os da nobreza de toga; (b) – nos diferentes grupos da burguesia, no novo exército profissional, entre os marinheiros, etc., ou ainda, entre os operários da fábrica. Seu refúgio será, então, a vida rural e os círculos restritos da família doméstica conjugal. Gurvitch nos lembra a observação de Descartes de que o senso comum é “a mais compartilhada” das faculdades, avaliando que o mestre do racionalismo moderno resistia desta maneira à tentação de negar a existência mesma dessa classe de conhecimento, “provavelmente pressionado pelas contradições crescentes entre os diversos beneficiários do conhecimento de senso comum”.

Enfim, nota-se a disputa entre a forma mística e a forma racional desse conhecimento, em particular no clero e no “campesinato” (“paysannerie”).

No último lugar do sistema cognitivo das sociedades globais que dão à luz o capitalismo, vem o conhecimento de outro e dos Nós, que, (1) – como o conhecimento de senso comum, também se encontra em grande dispersão pelos diferentes meios relacionados com a atualização da sociabilidade das massas, com a política de nivelação do absolutismo e com a desintegração dos grupos herdados da sociedade feudal, estando em nítida regressão a identificação do conhecimento dos Nós ao “espírito de corpo”.

(2) – Todavia, se nota um novo conhecimento de outro, como compensação parcial para o rebaixamento desse mesmo conhecimento de outro como de indivíduos concretos, lembrando-nos que, tanto na classe proletária nascente como na classe burguesa ascendente, ambas penetradas da ideologia de competição e de produção econômica, o conhecimento de outro é quase nulo.

Nesse novo conhecimento de outro, se trata de uma tendência para universalizar a pessoa humana que se relaciona a Rousseau, com sua teoria da Vontade Geral idêntica em todos, e a Kant, este, com seu conceito de “Consciência Transcendental” e de “Razão Prática”, que chega à afirmação da “mesma dignidade moral” em todos os homens.

Quer dizer, tem-se um conceito geral do outro fora de toda a concreção, de toda a individualização efetiva, acentuando-se as formas racional, conceitual, especulativa e simbólica, com tendência frustrada a reunir o coletivo e o individual no geral ou no universal.

Para encerrar, nota-se que as sedes de intelectuais encarregados de manter esse sistema cognitivo, desenvolvê-lo e difundi-lo, se enriqueceram com novos grupos e novos membros, destacando-se, junto aos filósofos, aos estudiosos, aos docentes, a entrada dos representantes das “belas letras”, dos escritores, dos doutrinários políticos e, por fim, dos inventores de técnicas novas.

 

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[i] Gurvitch, G: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op.cit. pág.189.

[ii]              Marx, Karl: ‘Le Capital-Livre I’, traduzido em 1872 por J.Roy, apresentação por Louis Althusser, Paris, Garnier-Flammarion, 1969, 699 págs. (1ª edição em Alemão: 1867), op. cit.

[iii] Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Los Marcos Sociales Del Conocimiento”, Trad. Mário Giacchino, Monte Avila, Caracas, 1969, 289 págs. – 1ª edição em Francês: Paris, Puf, 1966.