O Conhecimento na Realidade Social

O Conhecimento na Realidade Social.

via O Conhecimento na Realidade Social.

Para além dos arquivos eletrônicos que se podem administrar e gerir desde o exterior como qualquer recurso industrial há gêneros e formas diferenciadas do conhecimento variando com eficácia em função dos Nós, grupos, classes e sociedades globais.

Hoje em dia é comum supor que o conhecimento é aquela utilidade manuseada quando estamos ao computador. Adentrar a internet adquiriu tal alcance que nos faz lembrar o frisson do filme em três dimensões dos anos cinqüenta ou sessenta, quando as pessoas iam ao cinema para maravilharem-se com a experiência dos óculos bicolores e impressionarem-se com as imagens espacializadas que deles brotavam.

Vê-se por aí que cada vez mais se imagina a realidade do conhecimento pelo prisma da Web, como o quid emergente através dos portais da rede de redes.

Aparentando mais do que juízos objetivados, o conhecimento é confundido aos próprios arquivos eletrônicos que se podem administrar e gerir pelo exterior como qualquer recurso industrial.

Desse modo exteriorizado vê-se cada vez menos o caráter humano do conhecimento, como se a linguagem pura dos algorítimos houvesse gerado o simbolismo vazio de uma sintaxe lógica prévia que alhures, tecnificando a filosofia, um pensador tão influente como Wittgenstein (1889 – 1951) [i] elaborou como exigência suposta indispensável para aceder ao conhecimento.

Navegando contra essa corrente da tecnificação do saber, o sociólogo examina o conhecimento a partir da realidade social de conjunto, sem adotar a subordinação dos homens às máquinas e chamando a atenção para o fato de que, por trás dessa imagem redutiva, há gêneros e formas diferenciadas do conhecimento variando com eficácia em função dos Nós, grupos, classes e sociedades globais.

Deste ponto de vista, a atividade do sociólogo tem um interesse prestante não só para a as ciências socias, mas igualmente para as ciências humanas.

Não se trata aqui apenas do conhecimento científico, mas de todo o juízo que pretenda afirmar a verdade sobre alguma coisa.

É fato que os indivíduos mudam de atitude em função dos grupos. Da mesma maneira, os personagens que os papéis sociais encarnam mudam segundo os círculos a que pertencem.   A sociologia faz compreender que as expectativas de papéis sociais são realidades objetivas complexas e variadas que aí estão em dinâmicas coletivas de avaliação implicando o conhecimento, a moral, o direito, a educação, etc. como controles ou regulamentações sociais, cujas sedes focam-se em tipos diferentes e conflitantes de agrupamentos, classes e sociedades globais.

Sem dúvida, o peso do conhecimento na vida social e sua importância para as pessoas sendo maiores nas sociedades modernas e nas nossas sociedades atuais constituem um aspecto não negligenciável da experiência e da criação coletiva na teoria dos papéis sociais. Portanto, não se deve deixar passar despercebido o alcance da sociologia do conhecimento para acentuar a relativização de objetivações tais como os papéis sociais.

Os conceitos sociológicos compreendem correlações funcionais entre os quadros sociais por um lado – incluindo as formas de sociabilidade, os grupos, as classes sociais e as sociedades globais e suas estruturas – e por outro lado os diferentes gêneros do conhecimento [ii].

Deve-se ter em conta que não se trata aqui apenas do conhecimento científico, mas de todo o juízo que pretenda afirmar a verdade sobre alguma coisa ou, no dizer de Georges Gurvitch [iii],  por conhecimento deve entender-se “os atos mentais em que se combinam a experiência imediata e mediata em diferentes graus com o juízo”.

O problema da transmissão a uma nova geração das “objetivações da ordem institucional”.

No seu tratado de sociologia do conhecimento intitulado “A Construção Social da Realidade” Peter Berger e Thomas Luckmann desenvolvem uma análise dos “processos de legitimação pelos universos simbólicos” abordando o problema da transmissão a uma nova geração das “objetivações da ordem institucional” assim tornada histórica.

Quer dizer, a legitimação é tratada como uma questão de tradição teórica, incluindo as explicações e justificações. Entretanto, remando contra a corrente, o esquema analítico desses autores afirma a precedência do conhecimento sobre os valores nas objetivações, e se aplica a partir da distinção de quatro níveis. Inicialmente, a legitimação “incipiente” acha-se presente “logo que um sistema de objetivações lingüísticas da experiência humana é transmitido”. É o primeiro nível, que inclui todas as afirmações tradicionais simples do tipo “é assim que se fazem as coisas”. É o nível pré-teórico e constitui o fundamento do conhecimento evidente, “sobre o qual devem repousar todas as ‘teorias subseqüentes’ e, inversamente, ao qual estas devem atingir para serem incorporadas à tradição”.

O segundo nível contém proposições teóricas em forma rudimentar, incluindo esquemas explicativos que relacionam “conjuntos de significações objetivas” e que “são altamente pragmáticos”, como “os provérbios, as máximas morais e os adágios da sabedoria” – ademais das lendas e histórias populares.

O terceiro nível já compreende “teorias explícitas”: um “corpo diferenciado de conhecimentos” oferecendo um “quadro de referência” amplo para a “conduta institucionalizada”. Já se nota a função de “pessoal especializado” para a transmissão desse conhecimento, pelo que, pressupondo a eficácia dos sistemas cognitivos, o processo de legitimação começa a atingir um grau de autonomia em relação às instituições legitimadas, podendo gerar “seus próprios procedimentos institucionais”.

É somente no quarto nível que se impõem os universos simbólicos como complexos particulares de significações, isto é, como “corpos de tradição teórica que (a)-integram diferentes áreas de significação”, (b)-abrangem a ordem institucional em “processo de significação”, (c)-se referem a realidades diferentes das pertencentes à experiência da vida cotidiana, (d)-realizam o grau mais alto de integração “de particulares áreas de significado” e de “processos separados de conduta institucionalizada”.

Quer dizer, “todos os setores da ordem institucional acham-se integrados num quadro de referência global”. Desse modo, a “integração reflexiva de processos institucionais distintos alcança sua plena realização”; “todas as teorias legitimadoras menores são consideradas como perspectivas especiais”; “os papéis institucionais tornam-se modos de participação” [iv].

Como se vê não há análise do conhecimento em realidade social sem levar em conta a diferenciação dos gêneros do conhecimento, sua conformação em sistemas cognitivos e os quadros de referência que os atualizam. Em sociologia a integração dos fatos e a unificação nas estruturas se verificam a posteriori porque os grupos, as classes, as sociedades são afirmados tais na medida em que eles pronunciam e eles reconhecem os Nós, os grupos, as classes e as sociedades que pertencem reciprocamente e respectivamente aos grupos, às classes, às sociedades.

O público geral não compreende a distinção sutil entre as afirmações entendidas realisticamente e os postulados deliberadamente irrealísticos.

Vale dizer, os temas coletivos reais como conjuntos abertos produzem “o conhecimento de outro, dos Nós, dos grupos, classes, sociedades apreendidos em sua realidade e afirmações verídicas por um juízo consciente” – dos quais se tornam os quadros sociais pela tomada de consciência atualizando as maneiras de perceber. Aliás, sendo um conhecimento quase que indiferenciável dos quadros sociais tende a ser confundido às expectativas de papéis sociais.

Todavia, a análise diferencial das classes do conhecimento examina esse conhecimento em segundo lugar na lógica dos sistemas cognitivos, logo após o conhecimento perceptivo do mundo exterior implicado nas perspectivas desses próprios temas coletivos.

Não se espere, porém que a análise sociológica das classes do conhecimento desembocará em algum “paradigma” [v] ou levará a alguma espécie nova de “teoria epistemológica” que estabeleça previamente os “esquemas” dos temas coletivos.

Já notamos que a construção dos objetos precisos da experiência e do conhecimento é presidida pelos procedimentos dialéticos [vi] sendo descartada a aplicação de qualquer “paradigma” ou modelo de análise exterior à explicação sociológica ou que pretenda substituir os procedimentos tirados da realidade social ela mesma.

Deste ponto de vista, a marcha dos temas coletivos reais se desdobra no avanço da perspectivação sociológica do conhecimento como um fato “transparente” cada vez mais acentuado ao longo dos séculos modernos e definitivamente assimilado na cultura do século XX.

Assim por exemplo, tornou-se extremamente difícil esperar que o público não profissional acolha a distinção metodológica entre as proposições testáveis ou “formulações irrealistas” dos sociólogos científicos, feitas “no interesse da boa teoria científica” – como o postulado do comportamento que se conforma aos papéis sociais – por um lado e, por outro, as afirmações de valor sobre a natureza do homem, que sejam atribuídas como decorrentes ou implícitas naquelas proposições teoréticas.

Autores influentes reconhecem que por trás desta atribuição indevida de valor, tida por uma “espécie de reificação dos postulados testáveis”, observa-se que “o público geral não compreende a distinção sutil entre as afirmações entendidas realisticamente e os postulados deliberadamente irrealísticos” [vii].  Estes enunciados testáveis “implicam uma divergência fundamental do mundo do senso comum” que está no cerne da “contradição” entre esse “mundo do senso comum” e a ciência. Esta, por sua vez, ao mesmo tempo em que acolhe “a inadequabilidade de um argumento puramente lógico” ou conjetural, como ressalta aquele autor – “a lógica da pesquisa científica sendo especificamente baseada na incerteza fundamental do conhecimento humano”– não é, entretanto possível sem a publicidade que expõe os enunciados teoréticos aos olhos do leigo.

Desta forma é inegável que esta situação de aparente contradição em face da incompreensão pelo público geral da “distinção sutil” de Dahrendorf revela-se dialética e, configurando um caso de variação do saber em função dos quadros sociais, nos coloca diante de duas orientações complementares atinentes ao público da ciência, seguintes:

(a) – se é o caráter profissional que se impõe no público da ciência há compreensão da distinção sutil entre as afirmações entendidas realisticamente e os postulados deliberadamente irrealísticos, e prevalece então a classe do conhecimento científico;

(b) – se, pelo contrário, é o caráter não-profissional que se impõe há “não-compreensão” e prevalece a classe do conhecimento do senso comum, com a atribuição de uma imagem sobre a “natureza do homem” sendo afirmada em um “falso saber”.

Assim, neste exemplo, vem a ser suscitada a colocação em perspectiva sociológica do conhecimento como procedimento e fato e, exatamente por tratar-se de um procedimento que é também uma situação de fatos (procedimento dialético), aflora indispensável a exigência de análise diferencial das classes do conhecimento. Quer dizer, a análise das sete classes do conhecimento mais profundamente implicadas (a)-na realidade social e (b) – na engrenagem de suas estruturas.

A dialética do procedimento e do fato, exige a análise das sete classes do conhecimento mais profundamente implicadas na realidade social e nas engrenagens de suas estruturas.

Com efeito, se a seqüência dessas sete classes do conhecimento nesta análise diferencial vai das classes de conhecimento mais espontaneamente implicadas na realidade social para aquelas mais implicadas na engrenagem das estruturas sociais, essa trajetória não significa que estejamos a substituir a sociologia do conhecimento por uma “teoria genética” da “formação” dos quadros sociais.

Nada obstante, é fato que essa trajetória permite assinalar as diferenças nas fases por que passam os sujeitos sociais para se constituírem como tais, isto é, para se afirmarem como intermediários e se objetivarem nos quadros sociais. Todavia deve-se reter que o sequenciamento praticado nesta análise diferencial desenvolvida por Gurvitch é uma via de mão dupla e a configuração dos quadros sociais é marcada pela ambigüidade e pela ambivalência dialéticas.

Desta sorte os próprios intermediários ora são pendentes mais para a função simbólica, ora mais para a função social real, dependendo das situações de fato, isto é, conforme a perspectivação sociológica do conhecimento. Portanto, o “salto qualitativo” por trás da configuração dos quadros sociais não é totalmente irreversível e quando se verifica a objetivação da funcionalidade o estágio “menos complexo” da tomada de consciência permanece em tensão, sem síntese superadora – como vimos no caso da “distinção sutil” de Dahrendorf, em que o conhecimento de senso comum permanece atualizado no âmbito do público da ciência como quadro social.

A perspectivação sociológica do conhecimento, como dialética do procedimento e do fato, exige a análise das sete classes do conhecimento mais profundamente implicadas na realidade social e nas engrenagens de suas estruturas.

Assim, o conhecimento perceptivo, o conhecimento de outro e o conhecimento de senso comum, os mais profundamente implicados na realidade social são estudados no âmbito da hierarquia em classes do conhecimento.

Todavia, há uma lógica bem marcada na seqüência com que figuram na análise sociológica. Isto em razão de que o conhecimento perceptivo do mundo exterior é privilegiado e, como já o notamos, dá conta das perspectivas recíprocas sem as quais não há funções sociais.

As demais já são classes de conhecimento particular, já são funções correlacionadas dos quadros sociais e pressupõem aquele conhecimento perceptivo do mundo exterior sem que, todavia, haja qualquer atribuição de valor. Quer dizer, tomando-os como conjuntos complexos e abertos, a análise sociológica afirma tão somente a constatação de que a simples manifestação dos temas coletivos é diferenciada em fato através da perspectivação sociológica do conhecimento perceptivo do mundo exterior, do conhecimento de outro e do conhecimento de senso comum.

Em resumo: onde se verifique essas classes de conhecimento profundamente implicadas na realidade social descobre-se a simples manifestação dos temas coletivos – os Nós, os grupos, as classes sociais, as sociedades – de tal sorte que o conhecimento aparece como obstáculo, como aquilo que suscita os esforços e faz participar no real, levando à configuração da funcionalidade dos quadros sociais como reciprocidade de perspectivas, aos quais são essas classes de conhecimento as mais espontaneamente ligadas.

O conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico são enlaçados em modo específico na engrenagem das estruturas sociais.

 

Já o conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico guardam seus segredos. Daí exigirem certo esforço para serem alcançados.  Daí também a razão pela qual são estudados exatamente nesta seqüência em suas diferenças específicas como classes de conhecimento particular.  Embora não sejam alcançados em modo espontâneo, esses conhecimentos são igualmente enlaçados na realidade social, mas em modo específico são implicados na engrenagem das estruturas.

Vale dizer, nesse caráter estrutural específico do conhecimento, nesta sua distributividade em função dos seus próprios segredos, o conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico como classes do conhecimento exigem quadros de referência, exigem as interpretações das funções e, portanto, servem à marcha dos temas coletivos preferencialmente lá onde se atualiza a tomada de consciência em suas conceituações e simbolizações.

Por outras palavras, a colocação em perspectiva sociológica do conhecimento técnico, do conhecimento político, do conhecimento científico, do conhecimento filosófico faz ver preferencialmente o aprofundamento na luta dos temas coletivos como sujeitos da tomada de consciência.

Finalmente, a perspectivação sociológica desses conhecimentos específicos compreende as massas, as comunidades, as comunhões, os agrupamentos particulares –incluindo nestes últimos os grupos profissionais, as universidades, os Estados, as Igrejas, as fábricas, os agrupamentos de localidades– as classes sociais, as sociedades globais, como tipos de quadros sociais do conhecimento em estado de correlações funcionais [viii].

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