Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional

Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional – Jacob (J.) Lumier en OpenFSM.

 

HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA COLETIVA NA

MODERNIZAÇÃO ACELERADA DOS ANOS VINTE:

Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional do ponto de vista das regiões mais vinculadas ao medievo.

( Notas sobre Ernst Bloch)

 

 

 

Por

 

 

Jacob (J.) Lumier

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro, Junho 2008

 

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RESUMO

 

 

Ernst Bloch empenha-se em busca do campo estético como o concretamente utópico e constata que as formas pré-capitalistas jamais realizaram os conteúdos visados do solar, do solo, dos “de baixo”, de sorte que estes focos do tradicional na cultura já guardam desde o começo a qualidade de intenções insatisfeitas.

 

 

 

O problema da análise blocheana é a coincidência no momento exterior: o opor não-contemporâneo do pequeno homem que coincide com as manifestações residuais da sociedade antiga sem implicar isto em correlações funcionais com as formas pré-capitalistas.

 

 

O estudo dos Anos Vinte por Ernst Bloch se desenvolve a partir da percepção da desagregação dos valores chevaleresques feudais em detrimento da pessoa dos camponeses como levando à afirmação do princípio cultural da Igreja.

Deste ponto de vista descobre-se uma profunda ambigüidade e certa complementaridade no processus de abertura do mundo moderno, acentuadas com a obra devastadora da revolução francesa ao fazer desmoronar por completo a superestrutura das relações econômicas do passado remoto (patriarcal e comunitário)[1].

Em conseqüência, afloraram na abertura do mundo moderno as seguintes situações:

 1º) – (1a) que a burguesia afirmou a vontade individual ao lograr um poder político e (1b) que esta mesma burguesia, em câmbio, permaneceu debilitada inclusive no aspecto de crença e reconhecimento público do seu modo de ser;

2º) – que, nas regiões do mais tenaz reduto do medievo, como a Alemanha, esse Eu externamente liberado e a ascensão capitalista levaram não ao poder político, mas ao fracasso da vontade individual e à falta de escrúpulos do Estado autoritário. Surgido este, por sua vez, na seqüência de inumeráveis príncipes pavorosamente emancipados todos eles e na base da ausência de unidade econômica combinando-se à falta no país de maturidade política e à inexistência de uma entidade jurídica.

3º) – com o desmoronamento da superestrutura de relações econômicas de um passado remoto, os demais países perderam a mentalidade comunitária;

4º) – na Alemanha, essa mentalidade comunitária e até mesmo a profundidade do sentimento de interioridade herdado do gótico tardio e do afundamento na consciência coletiva do tabu sacramental, se subtraindo ao fracasso político, foram se refugiar no âmbito do meramente afetivo e emocional [2] – daí surgirá a psicologia coletiva fenomenológica típica do pequeno homem e o concretamente utópico que sobressaem nas observações de Ernst Bloch sobre os anos vinte. 

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HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA COLETIVA NA MODERNIZAÇÃO ACELERADA DOS ANOS VINTE:

Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional

do ponto de vista das regiões mais vinculadas ao medievo.

 

 

Primeira Parte

 

A tendência refratária ao espírito moderno, a paysennerie e a juventude.

 

Na análise crítica da cultura tradicional oferecida por Ernst Bloch se põe em relevo que a busca do existente, do diverso, do homem obnublado como material artístico se efetua através da constatação de uma tendência refratária ao espírito da máquina e da racionalização.

O primeiro passo no estudo dessa tendência refratária atuando no capitalismo tardio da Alemanha dos Anos Vinte se faz a partir da descrição de certas espécies de vida social mais facilmente observadas por sua dificuldade de integração na modernização acelerada.

Para este fim, a análise utilizará com alcance sociológico a noção de espécie, aproveitando a procedência biológica deste termo que guarda o elemento muito antigo do ancestral.

Como conjunto de indivíduos que se reproduzem, as espécies sociais se afirmam no campo micrológico da realidade da cultura não por um caráter coletivo, mas sim pela reprodução de um elemento muito antigo, ancestral, o caráter coletivo sendo tirado dos conjuntos mais amplos na superfície, em relação aos quais os primeiros se diferenciam exatamente como espécies.

Uma espécie recomeça sempre e que vem de muito longe, remarcando no homem tradicional do campo [3] (“paysannerie”) esta última qualidade, enquanto a primeira é reservada à juventude, a qual será estudada, sobretudo no interior da classe burguesa[4].

 

A atitude objetiva moderna da juventude burguesa na Alemanha dos Anos Vinte, naquele tempo em ausência de intenção se mostrará apenas exterior.

 

 

Com efeito, a atitude objetiva moderna da juventude burguesa na Alemanha dos Anos Vinte, naquele tempo em ausência de intenção [5] se mostrará apenas exterior. Ao invés do apego moderno ao pensamento analítico e aos cálculos, o que se observa é o antigo gosto das qualidades viris conquistadas, do vigor e da franqueza; é o estilo apaixonado e ardente que aparecem mais fortes e valem mais do que as doutrinas.

Nota-se que as palavras exaltantes parecem mais exatas à juventude do que as palavras investigativas; os costumes parecem mais belos do que as cidades em modernização.

Os sonhos passados, compreendidos no sentido de atividade onírica in-dormida [6], se associam na juventude à inquietação orgânica de maneira propícia aos movimentos de exaltação personalista, como eram aqueles movimentos alheios à modernização compostos pela montage na burguesia [7].

O modo de ser dos adolescentes leva-os a formar facilmente seus clubes procurando fazer amigos e buscando sobretudo um pai que frequentemente não é o seu verdadeiro pai, no sentido de comungar nos mesmos ideais. Os jovens eram seduzidos pela imagem feudal do herói cavaleiresco das antigas ordens estamentais de cavaleria.

Portanto, tendo em conta os fanatismos de que era pródiga a Alemanha dos Anos Vinte, a análise crítica da cultura tradicional irá buscar nesse modo de ser dos adolescentes o exemplo que serve para compreender como a juventude era fácil de seduzir para ingressar em pequenos grupos com um líder conhecido no topo.  Por esta via, destaca-se a facilidade dessa juventude burguesa alemã em deixar-se seduzir para participar em associações com juramento de sangue como então havia e aparecia como anormal para a grande burguesia. 

 

Em sua obra “Le Príncipe Espérance”, a função utópica é estabelecida no conhecimento filosófico como pulsão imprescindível à auto-conservação, sendo a partir dessa compreensão que Ernst Bloch a classificará na extensão do desejo de ser melhor aquinhoado, o qual resta em fato e necessariamente irrealizado no estado de atenção, base fenomenológica de toda a comunicação existencial.

 

Quanto ao exame na paysannerie germânica dessa tendência refratária ao espírito da máquina e da racionalização será não a inquietação orgânica seduzindo para a exaltação personalista, que acabamos de ver em relação à juventude, mas antes o apego ao solo antigo que se imporá como elemento ancestral.

Neste ponto cabe sublinhar o alcance filosófico das análises em exame . Trata-se de estabelecer a eficácia diferenciada em nível das superestruturas dos sonhos passados como atividade onírica in-dormida e, por esta via, preparar o estudo da função utópica.

Com efeito, no realismo estético a função utópica é enfocada como qualidade que em estado de princípio cada ser humano pode encontrar nos Nós que apreende em sua sociabilidade e que por este mesmo estado de princípio, isto é, por aspiração, a arte pode pôr no horizonte que lhe é essencial.

Em sua obra de 1954 intitulada “Le Príncipe Espérance[8], a função utópica é estabelecida em conhecimento filosófico como pulsão imprescindível à auto-conservação, sendo a partir dessa compreensão que Ernst Bloch a classificará na extensão do desejo de ser melhor aquinhoado.

 Por sua natureza gestadora, o desejo de ser melhor aquinhoado jamais se completa, é permanente em sua não-complementação, restando em fato e necessariamente irrealizado no estado de atenção, base fenomenológica de toda a comunicação existencial.

Haverá, pois que distinguir em paralelo às imagens simbólicas ideais em que a sociologia estuda a moralidade ideológica, aquelas outras que, ultrapassando-as, devem ser compreendidas, sobretudo como imagens-aspiração (o herói cavaleiresco, as formas góticas dos mobiliários, solares e mansões rústicas, por exemplo). Nestas se incluem as imagens formadas de sonhos passados, as imagens diferenciadamente formadas pelo elemento onírico da arte que integram o ideal estético realista ou entelequial, sendo exatamente os sonhos passados que segregam o critério para a não-contemporaneidade. 

 

O problema crítico da cultura tradicional é saber a que se deve o enraizamento obstinado da paysannerie germânica como espécie social com lastro na ambiência cultural do gótico tardio legado dos séculos XV e XVI.

                            

Todavia, não se pensa que os conhecimentos sociológicos restam desatendidos na abordagem pelas imagens-aspiração do gótico tardio. A análise da paysannerie germânica tem conta daqueles bem conhecidos aspectos sociológicos relevantes da sobrevivência do modo de produção pré-capitalista, tais como: ser a paysannerie uma classe possuidora dos próprios meios de produção; utilizar ela as máquinas agrícolas fazendo-o, porém no quadro antigo extensivo à herdade, ao solar e à terra de semeadura ao seu redor; o desconhecimento em tal ambiência tradicional da figura do fabricante capaz de introduzir o ofício de tecer mecânico e as atividades manufatureiras correspondentes; neutralização das oposições econômicas entre explorados e exploradores devido ao desempenho do papel de patriarca ativo pelo paysan rico apesar das diferentes relações de propriedade, etc.

Se estes aspectos têm validade para acentuar ou reforçar a tendência refratária à modernização não definem por si sós o conteúdo não-contemporâneo autêntico da paysannerie germânica nem explicam completamente o sentimento dos paysans alemães de representarem um estamento em permanência, relativamente unido.

O problema crítico da cultura tradicional é saber a que se deve o enraizamento obstinado da paysannerie germânica como espécie social com lastro na ambiência cultural do gótico tardio legado dos séculos XV e XVI.

Quer dizer, o enraizamento obstinado da paysannerie germânica deve ser compreendido como afirmando-se no exterior da propriedade dos meios de produção pré-capitalistas e como originado da própria matéria que os paysans trabalham, a matéria que os entretém e os alimenta em modo imediato. Deve ser compreendido como parte do seu próprio corpo, a saber: os paysans das regiões mais vinculadas ao medievo são colados no solo antigo e no ciclo das estações.

Tal o conteúdo autenticamente não-contemporâneo da tendência refratária à modernização na paysannerie germânica que servirá inclusive como referência para explicar a persistência da forma gótica.

Além de uma mentalidade cheia de uma velha desconfiança afirmada no idiotismo, no embotamento, na tradição do costumeiro e da fé, o senso de ser ligado no solo, na herdade e no solar rústico, e o individualismo do paysan germânico, mostram a persistência da forma gótica nas mansões, nos móveis, e nos costumes campesinos como realidade da cultura[9] . 

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Segunda Parte

 

A Psicologia fenomenológica do tradicional na cultura.

 

Se o tradicional configura um campo estético diferenciado no âmbito das superestruturas, deve ser examinado no processo histórico em sua oposição ao tempo presente do capitalismo dos Anos Vinte, isto é, na tendência refratária à modernização acelerada. Desta forma, a análise de Ernst Bloch, em realismo estético, vai mais longe do que o exame de correlações entre a tendência refratária à modernização e as formas pré-capitalistas sobreviventes.

Buscando as manifestações dos sonhos passados como elementos oníricos in-dormidos e artísticos do tradicional na cultura, põe-se em relevo a eficácia estético-sociológica das imagens da interioridade apaziguante que têm por focos o solar, o solo, os de-baixo[10].

Numa abordagem de estratificação social, descobre-se a psicologia coletiva (fenomenológica) dos de-baixo como relacionada à figura do pequeno homem e abrangendo neste tipo os seguintes elementos: (a) a camada, ou melhor, a capa dos empregados definida por distância social em relação aos peões de fábrica; (b) a pequena burguesia antiga, empobrecida em conseqüência do progresso das corporações e por isso decepcionada.

Por esta via, se distinguem inicialmente duas situações:

Primeiro ponto: as imagens aparentemente relevantes dos determinismos sociais das formas pré-capitalistas. 

Observadas por distinção das imagens da interioridade apaziguante, as imagens que parecem relevar das formas pré-capitalistas atendem em realidade ao tipo do pequeno homem que perdeu posição e aspira a recuperar o dinheiro perdido, que nelas se encontra de soslaio, furtivamente, mas, em fato, está integrado no tempo presente do capitalismo.

Se este pequeno homem oblíquo pode vir a integrar as fileiras do fanatismo, do anormal, não será em modo definitivo posto que bastará sua situação econômica melhorar para que ele deixe de ser brutal.

Observado sobre um fundo de desvario e entontecimento, destaca-se que a modernização intensa trouxe ao pequeno homem a embriaguez da distração na mesma proporção em que acentuou a confusão de medo e piedade[11].

Na psicologia coletiva das figuras da ambiência tradicional em focos nos Anos Vinte, o pequeno homem oblíquo não deseja outra coisa que tornar a ser doméstico e recuperar sua sujeição a um senhor feudal, buscando a obediência com apego à ordem e hierarquia.

►Entretanto – este é o segundo ponto – toda a outra coisa são as imagens da interioridade apaziguante no sentido de harmonização, afirmadas pelo tipo do pequeno homem no curso de sua experiência da modernização como entontecedora, mas que, no contexto dos Anos Vinte, têm procedência recente se comparadas ás imagens feudais de busca da obediência.

Constata-se que as imagens da interioridade apaziguante, embora revelem um apelo que não atrai vantagens ou recompensas, como as da obediência atraem, são todavia representadas como imagens que já aparecem desgastadas, desbotadas, desanimadoras.

Dessa maneira cabe classificar no primeiro ponto as imagens em que o pequeno homem vê a si mesmo em seu atraso cultural e social como integrante do capitalismo.

No segundo ponto, cabe classificar as imagens diferenciadas em que o pequeno homem simplesmente não se vê, não vê onde ele está, embora ele esteja totalmente no tempo presente do capitalismo, só que ele aí está em maneira amesquinhada e anestesiada.

 

Ernst Bloch empenha-se em busca do campo estético como o concretamente utópico e constata que as formas pré-capitalistas jamais realizaram os conteúdos visados do solar, do solo, dos “de-baixo”, de sorte que estes focos do tradicional na cultura já guardam desde o começo a qualidade de intenções insatisfeitas.

 

 

Mas não é tudo e o esquema da análise não é assim tão simples. Ernst Bloch empenha-se em busca do campo estético como o concretamente utópico. As formas passadas ou pré-capitalistas jamais tornaram realizados em fatos os conteúdos visados do solar, do solo, dos de-baixo, de sorte que estes focos do tradicional na cultura já guardam desde o começo a qualidade de intenções insatisfeitas.

Além disso, notando que estas intenções insatisfeitas passam ao longo da história por contradições veladas, Ernst Bloch as examinará desde a colocação em perspectiva filosófica, para além da psicologia representacional, tratando-as como conteúdos intencionais não ainda trazidos à luz do passado na realidade da cultura, o que o levará a definir o campo estético em eficácia como o concretamente utópico.

A partir dessa orientação dialética em profundidade torna-se possível, portanto penetrar na psicologia fenomenológica do tradicional.

►A análise descobrirá então o seguinte: (a) que foram extintos os deveres, os ramos da cultura e estado mental da antiga pequena burguesia; (b) que, oculto sob essa extinção, o pequeno homem se ressente da falta de alguma coisa habitual, psíquica, móbil, e (c) – que este algo habitual em falta não é uma coisa somente econômica, mas é uma carência profunda que no seu ser ele opõe ao tempo do capitalismo.

 Entrementes, a análise passa a um grau maior de complexidade ante a constatação de uma coincidência na afirmação deste opor ou contrapor no ser do pequeno homem ao tempo mesmo do capitalismo.

►Ou seja, o opor dessa ausência ressentida é afirmada desde o âmbito interior do sujeito em feição apática e morna, enquanto no âmbito da vida exterior é afirmada junto com os vestígios estranhos inseridos no tempo presente do capitalismo, é afirmada coincidentemente com os vestígios dos tempos antigos pré-capitalistas que restaram.

Daí, dessa coincidência complexa, decorrem certas características da psicologia fenomenológica do tradicional, como psicologia em ausência de móbil, que em realidade configuram as características do campo estético.

            

O problema da análise blocheana é a coincidência no momento exterior: o opor não-contemporâneo do pequeno homem que coincide com as manifestações residuais da sociedade antiga sem implicar isto em correlações funcionais com as formas précapitalistas.

                                                                                                     

Com efeito, o problema da análise blocheana é a coincidência no momento exterior: o opor não-contemporâneo do pequeno homem que coincide com as manifestações residuais da sociedade antiga, sem implicar isto em correlação funcional com as formas pré-capitalistas.

Desta forma, posto não haver correlação funcional, Ernst Bloch assinalará não só a ausência de equilíbrio da carência profunda contraposta neste opor, por isso designado não-contemporâneo, mas classificará igualmente desequilibrada a contradição mesma em opor aquela carência profunda.

Isto será feito por duas razões, seguintes: (a) porque essa notada contradição encontra-se em desalinhamento com as formas pré-capitalistas residuais; (b) – porque essa notada contradição constitui o fator de ativação dessa outra contradição interligada que é a modernização em contradição com a consciência da sociedade antiga, funcionalmente correlacionada esta sim àquelas formas précapitalistas.

Caso este que, por exemplo, é observado na consciência do campesinato (paysannerie) lá onde equivocadamente o campesinato se percebe a si próprio como um estamento, à feição dos grupos tradicionais que caracterizaram as ordens feudais de chevalerie.

Mas não é só a explicitação dessa consciência extemporânea que a constatação da coincidência complexa nos apresenta. A carência profunda contraposta e a contradição no opor não-contemporâneo do pequeno homem comportam variação conforme a colocação em perspectiva do shock histórico no quadro social mais amplo no qual ele está inserido.

Acrescente-se que o caráter desalinhado da não-contemporaneidade dessa psicologia fenomenológica provindo de antigas intenções insatisfeitas deixa transparecer o que Ernst Bloch classifica como sentimento de cólera recalcada: um rancor excluído do campo consciente, mas permanecendo intacto em sua força na vida psíquica dos indivíduos.

 Na medida mesmo desse transparecer são notados os dois eixos de variação da não-contemporaneidade dessa psicologia de ausência de móbil, a saber:

(a) – em época apaziguante essa cólera recalcada mantém-se próxima da feição apática e morna com que a ausência ressentida do algo habitual em falta afirma-se subjetivamente podendo, todavia aparecer ou como atitude exasperada ou como atitude meditativa, mas em todo o caso uma atitude daquele que se recolhia na intimidade de uma vida social que ele não mais acompanhava;

(b) – entretanto esta configuração se altera sob a época desordenada da modernização/industrialização acelerada dos Anos Vinte na Alemanha como região mais enraizada no medievo e o recalque poderá então irromper como a rebelião da cólera retida, notada exatamente a partir da ativação não só da consciência coletiva de uma outra época, antiga, mas da ativação do próprio ser coletivo que lhe é subjacente.

Segundo Ernst Bloch – e este será o coroamento do momento inicial da análise blocheana em busca do campo estético como o concretamente utópico que expusemos nos parágrafos anteriores – tal potência daquela psicologia coletiva em ausência de móbil deve ser interpretada a partir dos rastros e das lacunas de certa expressão romântica (que nosso autor descreverá em certas formas literárias, como veremos).

Ou, no dizer do próprio Ernst Bloch, deve ser interpretada tomando por base a constatação de que a pequena burguesia tradicional embeleza no presente do capitalismo o passado cultural, ela opõe a tal presente suas antigas aspirações não realizadas misturadas ao melhor relativo do passado.

Entretanto, este embelezar estético do passado tem um componente trágico que todavia é concretamente utópico. Componente este que não é limitado ao fato de que o melhor relativo embelezado são os aspectos das formas précapitalistas cujos vestígios estão ultrapassados no presente do capitalismo em modernização.

Por esta via, o componente trágico no embelezar do passado que é também um componente concretamente utópico põe em relevo o modo do opor do pequeno homem como sendo um modo não-contemporâneo porque se trata de um opor afirmado em face de um tempo presente no qual até mesmo a última satisfação também desapareceu[12]. Tal o concretamente utópico que define o campo estético em eficácia diferenciado no âmbito das superestruturas ao século XX para as regiões mais enraizadas no medievo.

 

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Etiquetas:

Comunicação, crítica, história, ideologia, relações humanas, sociologia, século vinte, movimentos campesinos, modernização, sociedade antiga, aspiração, formas pré-capitalistas e não-contemporaneidade, capitalismo, análise fenomenológica, classes subalternas, ambiência tradicional, realismo estético.

 

Contribuição para a Crítica da Cultura

©2008 by Jacob (J.) Lumier

 

 

Fim do Capítulo/Postagem:

HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA COLETIVA NA MODERNIZAÇÃO ACELERADA DOS ANOS VINTE:

Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional

do ponto de vista das regiões mais vinculadas ao medievo.

 

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[1] A superestrutura correspondente ao antigo Sacro Império Romano Germânico.

[2] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit, pág. 200.

[3] O homem do campo estudado por Ernst Bloch, dado seu distanciamento do moderno, está em um tempo bem diferente da paysannerie francesa, mas tem em semelhança o conteúdo econômico objetivo dos conflitos verificados no século XVI nas terras germânicas.

[4] Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps (Erbschaft dieser Zeit, Zürich, 1935), tradução de Jean Lacoste, Paris, Payot, 1978, 390 pp. Cf. págs. 96, 97 sq.

[5] Na Alemanha dos Anos Vinte,ascombinações a-normais na burguesia declinante exprimem o vazio do mundo preenchido pelas coincidências de uma história dos fenômenos, na qual, descrevendo um tempo em ausência de intenção, Ernst Bloch descobre uma fenomenologia que, por não ser a boa, servirá de alavanca para a boa, prestando também certa maneira de assegurar a antiga cultura (gótico tardio).

 

[6] Ademais dos elementos do desencadeamento e do conteúdo do conflito que são de ordem econômica, o tradicional dentro do processo histórico é examinado como marcha do gótico tardio na referência das insurgências campesinas e do milenarismo que as anima no século XVI na Alemanha, como crença real. Neste marco, as afeições, as emoções sérias e puras, os entusiasmos projetados para um fim e os sonhos, que configuram o milenarismo como crença real, são designados em conjunto por Ernst Bloch como o onírico in-dormido, e constituem um nível fenomenológico diferenciado que se descobre como legado do passado na profundidade do sentimento em foco na realidade estética da cultura em modernização acelerada dos anos vinte.

[7] No enlace da burguesia e da cultura o relativismo anuncia a fissura na superfície fechada da realidade favorecendo a montage no sentido das combinações ab-normais da grande burguesia com os movimentos culturais alheios à modernização na industrialização.

[8] Bloch, Ernst: Das Prinzip Hoffnung, 3 vol.,Berlin 1954/1955/1959. Versão francesa: “Le Principe espérance”, vol. 1, Paris, Gallimard, Bibliothèque de philosophie, 1976.

[9] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp. 98, 99.

[10] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp.103, 107 sq, 111.

[11] Sobre a confusão de medo e piedade, ver neste Website o citado artigo A arte da Montage e a Modernização na Filosofia Literária de Ernst Bloch: comentários sobre Joyce e o surrealismo.

[12] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp. 108.