Sociologia do conhecimento: notas para uma introdução

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Jacob (J.) Lumier


A colocação do conhecimento em perspectiva sociológica suscitou a oposição de críticos competentes. O principal argumento contrário pretendeu identificar a sociologia do conhecimento à chamada “sociologia radical”.

Para tais críticos, a sociologia do conhecimento influente nos anos de 1960 deve ser lida ou entendida em ligação com a atitude que procura contrastar o estrutural-funcionalismo de Talcott Parsons (1902 – 1979), isto é, em ligação com a chamada “teoria do conflito” e com o argumento de que importa alcançar o significado das oposições de interesses geradas pelos cortes, quebras de continuidade ou divisões seccionais dentro da sociedade como um todo [i].

A sociologia do conhecimento se colocaria como “um corpo teórico empiricamente verificável” e, ao mesmo tempo, como “um guia moral para a ação política”, se constituindo basicamente como protesto contra a proposição de neutralidade da explicação em sociologia.

Desta forma, os críticos da nossa disciplina parecem se colocar contra o estudo dos coeficientes existenciais do conhecimento, constatados no fato originário de que todo o conhecimento humano é uma atividade prática e, em razão disto, comporta aspectos pragmáticos e políticos, além de irredutíveis variações nas relações entre os quadros sociais e os próprios conhecimentos.

O argumento de que esse estudo diferencial constitui uma “sociologia radical” em verdade é restrito ao debate nos Estados Unidos, em torno dos escritos de Alfred Schutz (1899-1959), o notável pesquisador e antigo seguidor do mestre da filosofia fenomenológica no século XX Edmund Husserl (1859 – 1938).

►De fato, no estudo intitulado “O Interior da Ciência: Ideologia e a Sociologia do Conhecimento[ii], em que introduz a noção de “paradigma” como objeto de crítica, Stuart Hall nos diz que “na obra de Alfred Schutz vemos a sociologia do conhecimento – ali colocada entre aspas – sendo levada ao seu ponto extremo”.

Faz referência ao livro de Peter Berger e Thomas Luckmann intitulado “A Construção Social da Realidade” – cujo subtítulo na edição brasileira é “Tratado de Sociologia do Conhecimento[iii] – nos dizendo com certo exagero e pouca percepção do problema sociológico dos símbolos sociais, que a “linha de pensamento” desses dois autores leva “até seus limites máximos” a proposição atribuída a Schutz de que “as relações sociais são concebidas essencialmente como estruturas de conhecimento”.

A suposta orientação radical apressadamente atribuída à sociologia do conhecimento carece aqui de procedência. Denunciar “as explicações funcionalistas” como “prestidigitação teórica” não é radicalismo verbal, mas significa sustentar a postura crítica em face das tentativas de empreender a análise estrutural como dissociada do estudo dos agrupamentos sociais concretos. Berger e Luckmann advertem sobre o risco de reificar os fenômenos sociais [iv], e insistem que a sociedade estudada em sociologia é parte de um mundo humano, feito pelos homens, habitado por homens, por sua vez, fazendo os homens [v]. Não se vê, pois, radicalismo algum.

Quanto a Schutz, é-nos dito que este pensador “estava interessado na maneira pela qual os pensamentos ganharam uma faticidade objetiva no mundo”, e, em favor do realismo sociológico, tomava em consideração que “o mundo não é totalmente reduzido aos pensamentos existentes na cabeça do homem”.

É-nos dito também que esse interesse de pesquisa é desdobrado: 1) na constatação de que a reciprocidade de perspectivas entre as consciências era o fundamento para os processus de estabelecimento do significado e interpretação do significado; 2) no paradigma crítico da psicologia coletiva, segundo o qual “a atividade (práxis) de construção do significado”, que produziu “os significados objetivados capazes de retroagir sobre os sujeitos” como que “de fora”, “perdeu-se para a consciência (alienou-se)”.

E prossegue Stuart Hall citando a seguinte passagem de Jean Paul Sartre (1905 — 1980): “Desse modo, as significações provêm do homem e de seu projeto, mas estão inscritas em toda a parte, nas coisas e na ordem das coisas. Tudo a todo instante está sempre significando, e as significações revelam-nos os homens e as relações entre os homens através das estruturas de nossa sociedade” [vi].

Desdobrando tal paradigma, Hall nos diz que, em Schutz, “as muitas e várias objetivações no mundo correspondem a diferentes níveis ou camadas da consciência”. A realidade está estruturada em diferentes regiões, cada uma com sua camada apropriada de consciência: as múltiplas realidades do jogo, sonho, teatro, teoria, cerimônia e assim por diante.

“Na medida em que se passava de um domínio para outro da realidade social” (…) se trazia “um modo de consciência para o primeiro plano, relegando o restante para um segundo plano”. Só no domínio da vida cotidiana ou do senso comum é que não teríamos consciência em absoluto de estarmos operando num domínio de significados construídos.

Possivelmente, o caráter “radical” questionado pelos críticos da nossa disciplina esteja nessa crítica da tendência vista como alienante da vida cotidiana, e da utilização da sociologia do conhecimento como atitude oposta ao conservadorismo do estrutural-funcionalismo, acusado este último de justificar a reificação dos papéis sociais.

Nada obstante, pelo que vimos do “paradigma” de Schutz desdobrando-se a partir da reciprocidade de perspectivas entre as consciências, podemos notar que a objeção dos críticos rotulando “radical” a sociologia do conhecimento refere-se a um tópico do estudo sociológico das relações com outrem, como forma de sociabilidade,  de que se ocupa a microssociologia, tópico esse que em maneira alguma pudera servir para objetar e muito menos impugnar a orientação da sociologia do conhecimento para estudar os coeficientes humanos e sociais.

►Em outra passagem, não deixa de ser curioso que críticos aparentemente contrários à sociologia do conhecimento sejam os mesmos a declarar e a recomendar que se considere a Saint-Simon[vii] como “o pai da sociologia” [viii] quando o posicionamento desse mestre fundador é favorável à sociologia do conhecimento.

Com efeito, no realismo de Saint-Simon, a sociologia deve manter o paralelismo e a interpenetração dos modos de produção material e dos sistemas de conhecimento, “que são afinal tão-só aspectos parciais dos “regimes” ou, como diríamos hoje, dos tipos de estruturas sociais” [ix].

Se a sociologia de Saint-Simon se defronta a limitações provenientes de seu panteísmo latente (conducente a uma harmonia otimista que minimiza os conflitos e as antinomias entre as classes, entre Estado e Sociedade, etc.), e encara dificuldades oriundas da confusão entre a sociologia e a filosofia da história (anunciando a vinda do período orgânico, sem conflito), no seu realismo, por contra, cabe à sociologia estudar o esforço coletivo, como consistindo tanto “na produção dos bens materiais por meio do trabalho sob diferentes formas”, quanto na “produção das formas de conhecer” (esforço esse extensível à “produção das formas de estimar”, nas doutrinas morais).

Estudando a “constante correspondência entre as instituições e as idéias”, Saint-Simon propõe um esquema para a sociologia do conhecimento segundo o qual aos regimes “militares” (conquista, escravatura, servidão, agricultura, etc.) corresponde em particular o conhecimento teológico, e aos regimes industriais o conhecimento técnico, de que o conhecimento científico é apenas um sucedâneo.

Mas não é tudo. Gurvitch nota a concepção científica ou determinística da sociologia e nos lembra que Durkheim vai buscar conscientemente o termo “fisiologia social” em Saint-Simon, concebido como “os modos de operar” da sociedade implicando a liberdade humana [x].

Neste enfoque de Saint-Simon se entende bem que a sociedade seja “uma enorme oficina” chamada a dominar, não os indivíduos, mas a natureza, e que “a reunião dos homens constitui um verdadeiro ser”, mas este ser é um esforço simultaneamente coletivo e individual, e é igual, recíproca ou paralela sua capacidade em “espiritualismo” (psicologia coletiva, conhecimento, vida moral, vida do direito, dentre outros setores das obras de civilização) e em “materialismo” (morfologia social, incluindo os recursos, equipamentos, ferramentas, enfim, a infra-estrutura).

Daí a noção de quadros sociais (incluindo os Nós, os agrupamentos sociais particulares, as classes, as sociedades globais), como níveis na configuração da vida das sociedades quanto a sua capacidade igual ou recíproca em “espiritualismo” (psicologia coletiva, conhecimento, vida moral, vida do direito, dentre outros setores das obras de civilização) e em materialismo (morfologia social, infra-estrutura), como disse.

Sem dúvida, críticos, como Anthony Giddens, assinalam que o tipo de sociedade industrial é sempre calcado na observação da divisão do trabalho (a grande oficina e suas engrenagens), porém parecem não levar em conta que o estudo dos determinismos sociais e sociológicos está liberto da projeção de um determinismo único em sociologia, quase sempre identificado ao modo de produção capitalista (sobrevivência da filosofia da história do século XIX), ainda que esse determinismo único seja tratado – à maneira dos escritos sobre o realismo,  de George Lukacs (1885 – 1971) – como engrenagem montada na e sobre a divisão do trabalho em regime capitalista, e tida como válida e eficaz acima dos tipos de sociedades particulares e suas estruturas.

Nada obstante, dizer que a tradição de Saint-Simon deu poucas contribuições importantes à teoria de classes [xi] leva a desconsiderar que a teoria sociológica de estruturas ou de sociedades históricas só é eficaz do ponto de vista da explicação, só ultrapassa os dogmatismos e os preconceitos, se for precedida do estudo (dialético) dos determinismos sociais, a fim de colocar em relevo não só a análise dos níveis de realidade cuja hierarquia integra as estruturas sociais, mas, a fim de ressaltar que não há unificação sociológica dos fatos, das manifestações ou mundos particulares de realidade (incluindo as classes sociais como unidades coletivas reais mas parciais) sem o concurso da liberdade humana interveniente nesses determinismos, de maneira realista e não simplesmente lógica ou matemática.

A “tradição” histórica da sociologia que se nutre em Saint-Simon (e no “jovem” Marx) é notadamente sociologia diferencial (voltada para o estudo das variações nos quadros sociais) e não apenas sociologia sistemática (limitada ao estudo das regularidades tendenciais), estando melhor “aparelhada” que esta última para isolar os preconceitos filosóficos inconscientes e desmontar os dogmatismos.

Ademais, note-se que, a respeito da decadência do Estado e do Contrato no final do século XIX [xii], exatamente com esses termos seguintes, Émile Durkheim (1858 – 1917)  desenvolverá seu conceito de “amorfismo social” [xiii] .

Para esse importante autor e mestre fundador da sociologia como disciplina científica, a significação sociológica de tal decadência está em que a mesma se faz em proveito do direito social autônomo, que impulsionará o desenvolvimento da estrutura de classes no começo do século XX, com as relações coletivas produzindo sem a imposição estatal (isto é, em soberania social) os acordos, as convenções e os contratos coletivos no mundo do trabalho e da produção industrial.

A realidade social exclui o chamado “princípio de obediência à ordem” que rege as consciências fechadas sobre si mesmas, introspectivas. Aliás, por via de tal negação, o fato de que o mundo de realidade social ultrapassa qualquer imposição de condutas preestabelecidas, constitui importante diferencial da sociologia, a quem repugna o paradigma da filosofia social de Thomas Hobbes (1588 – 1679), acolhido em especial pelos cientistas políticos, notadamente o falso postulado da natureza heterogênea, levando ao atomismo que fragmenta a realidade social em uma poeira de indivíduos isolados (“o homem é o lobo do homem”), suportes de reflexos condicionados.

Para o sociólogo, suscitando as imanentes forças psicossociológicas de pressão e de atração, a integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência. A redução de qualquer sociabilidade sem diferenciá-la à simples interdependência e interação recíproca é um equívoco, de que não escapou Gabriel Tarde (1843 — 1904) em seu debate com Durkheim[xiv].

►Note-se para concluir que o problema das classes sociais foi vivamente discutido e suscitou forte interesse na chamada “École durkheimienne[xv].  Contribuições substanciais foram aportadas por Marcel Mauss (1872 – 1950) , Celestin Bouglé (1870 – 1940), François Simiand (1873 – 1935) e por Maurice Halbwachs (1877 – 1945)  à sociologia das classes sociais, sendo a obra deste último que seu sucessor no ensino, o notável Georges Gurvitch, examinará detidamente antes de propor o conceito sociológico diferencial de classes sociais [xvi]. Além disso, será da “tradição” de Saint-Simon que vem o compromisso com a explicação em sociologia sem o qual é fácil enveredar através de portas já abertas [xvii].

Finalmente, Saint-Simon trata do que é a realidade social; trata da relação entre produção material e produção espiritual; das fases “militar”, “industrial” e das épocas “críticas”; da dissolução futura do Estado na sociedade econômica e, finalmente, trata das classes sociais. Saint-Simon apenas vê na economia, na vida moral e na vida intelectual aspectos de uma atividade coletiva total; é a correspondência entre estrutura social, produção econômica, propriedade, regime político, idéias intelectuais e morais, assim como os seus conflitos possíveis, que o interessam.

Leia Também: “As Aplicações da Sociologia do Conhecimento
Jacob (J.) Lumier 2011



[i] Giddens, Anthony (1938): “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, trad. Márcia Bandeira, revisão Edson de Oliveira, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, 368 pp. (1ª edição em Inglês, Londres 1973) Cf. págs: 14,15.

[ii] Hall, Stuart: “O Interior da Ciência: Ideologia e a Sociologia do Conhecimento”, tradução Rita Lima, in Centre For Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham: “Da Ideologia”, Rio de Janeiro, Zahar, 1980 (da p.15 até p.44). Cf págs. 27 a 31.

[iii] Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento”, Trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[iv] Cf. Berger, Ibidem op.cit, p. 44.

[v] Cf. Ib. p.247.

[vi]  Sartre, Jean Paul: ‘Critique de la Raison Dialectique – Tome I : théorie des ensambles pratiques (précedé de Questions de Méthode)’, Paris, Gallimard, 1960, 756 pp. Cf: págs.98.

[vii] Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon, (Paris, 17 de outubro de 1760 — Paris, 19 de maio de 1825).

[viii] Giddens, Anthony: “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, op. cit. pág. 25.

[ix] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, In Gurvitch (Ed.) et Al.”Tratado de Sociologia – Vol.2”, Trad: Ma. José Marinho, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto, 1968, [da pág.145 a 189] (1ª edição em Francês: PUF, Paris, 1960). Cf. pág. 147.

[x] Gurvitch, G.: “Breve Esboço da História da Sociologia”, in Gurvitch et al.: “Tratado de Sociologia – vol.1″, trad. Rui Cabeçadas, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1964, [da pag.51 até págs.98]. 2ª edição corrigida (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1957). CF. págs. 57 segs.

[xi] Giddens, Anthony: “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, op. cit. pág. 28.

[xii] No marco da Segunda Revolução Industrial iniciada na segunda metade do século XIX (desenvolvimentos dentro da indústria química, elétrica, de petróleo e de aço), à decadência do Estado e do Contrato corresponde notadamente o período datado de 1885 a 1914 (Paz Armada), com o “neo-imperialismo” levando à contraposição da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália), por um lado, e a Tríplice Entente (Rússia, França e Inglaterra), por outro lado.

[xiii] Émile Durkheim, Le suicide. Étude de sociologie (1897). Paris: Les Presses universitaires de France, 2 éme édition, 1973, 463 pp. Col: Bibliothèque de philosophie contemporaine. Cf: p. 421 segs.

[xiv] Outro equívoco é cometido por Sartre que, sem ter em conta o problema sociológico da formação de um grupo estruturado, identifica o coletivo à sociabilidade das séries ou coleções de indivíduos e suas interações (como as pessoas em um ponto de ônibus, por exemplo). Cf. Jean Paul Sartre: “Critique de…”, op. cit.

[xv] Círculo de sociólogos em torno da revista L’Année sociologique  fundada em 1898 por Émile Durkheim (1858 – 1917).

[xvi] “Études sur les Classes Sociales”, Paris, Gonthier 1966, 249 pp., Col. Médiations (1ª edição em Francês: Paris, Centre de Documen-tation Universitaire-CDU, 1954). Cf: pp.14 sq, pp.164 a 200.

[xvii] Circunstância esta que parece acontecer com o próprio Giddens, quem declara tentar “estabelecer” proposições que “são convencionais e já amplamente aceites” (ib.p.20).