O Voto Obrigatório Como Controle Capitalista (Cyberactivism)

A luta contra a imposição do voto obrigatório e pela supressão da figura jurídica extravagante do “eleitor faltoso” se integra na luta contra o neo-liberalismo na medida em que a recorrência de imposição releva em última instância do fetichismo da mercadoria. Ao invés de suscitar um problema de análise crítico-histórica em busca do aperfeiçoamento das práticas democráticas, a recorrência de imposição do voto obrigatório vai passando sem que saiba ao certo o por quê.

Entretanto, a decisão de não interrompê-la acontece, mas o que não se sabe ao certo é a que razão se deve atribuí-la. E nisto consiste o mistério da coisa recorrente: sua ausência de saber. A recorrência de imposição do voto obrigatório não  é interrompida em atenção de um cálculo cuja lógica tampouco se sabe de onde procede, como é o caso da categoria da vantagem. Não se ultrapassa o voto obrigatório porque não tem vantagem nisto; porque o “cálculo risco x benefício” pesa contra a interrupção da recorrência do voto obrigatório. Simples assim.

Se a economia vai bem, se as reclamações dos eleitores não assustam, ainda que os absenteístas e correlatos sejam quase um quarto dos inscritos; se o voto obrigatório atende ao contencioso dos grupos em luta pelos altos cargos; se nossa democracia tem transparência; se os investidores internacionais estão circulando a contento seus dolares por aqui, e o mais importante: se estamos lucrando sem a interrupção da recorrência de imposição, então para que aperfeiçoar nossa democracia eleitoral com o voto facultativo sem restrições, e correr algum risco de que isto possa ter algum reflexo nas transações financeiras ou causar frisson em um mercado nervoso como as bolsas de valores?

Tal o fetichismo da mercadoria, tal o exagero do neo-liberalismo: pouco importa se as especificidades da história parlamentar são destruídas pela busca de vantagem; para que colocar o anti-absenteísmo em discussão? para que debater se a extensão do compromisso pela sustentação de um regime democrático releva da competência dos eleitores e não somente de seus representantes. Para que  incrementar a participação dos eleitores com o reconhecimento do alcance profundo do movimento Diretas Já, de 1983/4, sua relevância na afirmação da cidadania e na elevação da capacidade política dos eleitores. Para que, se não tem vantagem nisto?

Vantagem é extensão da categoria “preço” a todos os setores da sociedade indiscriminadamente. Daí que seja assinalado como fetiche da mercadoria. Nenhum objeto pode escapar a essa intromissão. Pode-se buscar vantagem em qualquer coisa: é isto que o neo-liberalismo ensina: só há mercado; o Estado deve defender unicamente o sistema financeiro, a economia do lucro desenfreado, da cobiça exacerbada, das bonificações milionárias e não os direitos sociais, e não os direitos de cidadania e não as políticas públicas. Por isto, por caracterizar-se como luta contra um fetiche da mercadoria, contra a busca de vantagem no âmbito da questão do aperfeiçoamento eleitoral democrático, a luta contra a imposição do voto obrigatário e pela supressão da figura jurídica do eleitor faltoso integra-se no conjunto das lutas sociais e da defesa da cidadania.

Jacob (J.) Lumier (28 de Julho 2012)

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Fonte: Cyberactivism Blog

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