Continuação de Vantagem Diferencial e Desigualdades Sociais

Este post é a continuação da Page “Vantagem Diferencial e Desigualdades Sociais“.

1)       ►Os caminhos de uma crítica.

a)       Sem embargo, algumas precisões neste ponto se fazem necessárias. Notadamente em relação à atitude ingênua que projeta a coisificação como maldição sobre o futuro, já que isto implica não penetrar na presença do futuro, fechar-se àquilo que é salvação no passado.

b)       Podemos nos alimentar do pensamento artístico para descrever a exclusividade em incluir em si, junto com a contradição da coisificação, também a coisificação mesma.

c)       É o caso de observar o paralelo entre a atitude artística diante do sofrimento e a psicanálise (freudismo). A busca do marco zero do pensamento artístico, caracterizando a instância em que esse pensamento encontra seu material, e pode então se exercer, mostra que esse material (os atos falhos, os sonhos e os sintomas neuróticos), por sua vez, é fornecido pelo sofrimento humano, isto é, pelos estados abalados, pesarosos ou comocionados que a sociedade evanescente causa aos homens e trata como desperdício (o sofrimento é inaproveitável, sem utilidade na produção capitalista).

d)       Os atos falhos, os sonhos e os sintomas neuróticos (a) na medida em que são fornecidos pelos estados comocionados, e (b) na medida em que esses estados comocionados dos homens são causados pela sociedade evanescente (evanescente aqui no sentido de decadência da consciência ou deterioração das significações humanas), (c) constituem o material meramente existente do pensamento artístico.

e)        Será exatamente esse meramente existente detectado com a caída da consciência (isto é, em cujo âmbito passa a função não representacional advinda por efeito dos estados comocionados) que sobressai na análise da dessubjetivação levando à ataraxia, entendida esta última como subjetividade estacionária (regressão da aspiração aos valores, no indivíduo) [1].

2)       ►A Vantagem Diferencial como Condicionamento e a Produção do Complexo de Impotência

3)       →O fato da ataraxia suscita o problema do complexo de impotência

a)       ►A ideologia do futurismo corresponde ao mundo da comunicação, como instância de reprodução do Sempre Igual e harmonização das necessidades ao chamado “mercado”, entendido este por sua vez como padrão de mercadorização estabelecido pelas hierarquias industriais e financeiras em contexto de capitalismo organizado.

b)       O complexo de impotência ultrapassa o psiquismo individual, tem dimensão coletiva. É um fenômeno não redutível aos transtornos da libido por si só, como nos estudos sobre o complexo de Édipo [2], mas combina-se a certos efeitos de um ambiente com símbolos estandardizados e condutas cristalizadas, implicando notadamente a domesticação, como docilidade na obediência. Tem sua boa descrição na desmontagem da ideologia do futurismo como representação, ou melhor, neste caso, precisamente, uma ficção do futuro [3] que não somente corresponde ao mundo da comunicação, mas é segregada pela indústria cultural.

c)       O futurismo implica uma corrente artística e literária que cedeu espaço à ficção desdobrada com a indústria cultural, cuja projeção ideológica foi desenvolvida no romance “Brave New World”, de Aldous Huxley.

d)       Nessa projeção, a ficção se limita aos prolongamentos de linhas já existentes na civilização técnica, compondo, então, nesses prolongamentos do Sempre Igual da produção em massa, uma montagem que se afirma inseparável da utopia negativa – um futuro onde o déjà-vu coletivo se prolonga indefinidamente.

e)       A ideologia do futurismo corresponde ao mundo da comunicação, como instância de reprodução do Sempre Igual e harmonização das necessidades ao chamado “mercado”, entendido este como padrão de mercadorização ou modelo de fazer lucro estabelecido pelas hierarquias industriais e financeiras em um contexto de capitalismo organizado.

4)       ►O Complexo de Impotência

a)       Neste ponto cabe lembrar certos efeitos negativos diferenciados no âmbito da civilização técnica como universal analogia de todo o produzido massivamente, coisas e homens.

b)       Vale dizer, há um problema sociológico não artificial, mas relevante, já apontado na sociologia crítica da cultura da T. W. Adorno [4], ao século vinte, que surge em decorrência do culto do instrumento.

c)       O termo “Culto” aqui empregado no sentido de lembrar uma prática de adoração é válido porque, no exagero da civilização técnica, o instrumento é tomado como separado de toda a destinação objetiva – incluindo a afecção fetichista em possuir perfeitos equipamentos de toda a natureza.

d)       Notem que o culto do instrumento abrange mais do que os recursos inertes, mas inclui a manipulação técnica (controle) da subjetividade e aspirações humanas, como veremos especialmente em nossa crítica da vantagem diferencial como mecanismo do sistema das desigualdades em um regime capitalista dado.

e)        Vale dizer, o culto do instrumento levou ao desaparecimento da contraposição do que hoje em dia chamam bens culturais intangíveis, por um lado e, por outro lado, a natureza como paisagem, como criação sem dominar mais além da sociedade, termos esses dos quais se concebia, como tema central da filosofia burguesa e à maneira do romantismo mítico, a suprema reconciliação [5], o absoluto de toda a aspiração.

f)        Em consonância com o desaparecimento do tema reconciliador, desponta o esquema de uma dessubjetivação pura, como problema sociológico, no caso, o problema de equacionar os planos de certas involuções já existentes no cotidiano da civilização técnica e da sociedade em regime avançado do capitalismo organizado.

g)       A hipótese da crítica da cultura é com certeza bastante operativa e será levada em conta em nossas atividades, a saber: para a dessubjetivação concorrem involuções que tendem a se converter em disposições utilitárias, isto é, prestam serventia na cultura de massa, seja (a) como maneira de organizar e harmonizar as necessidades, seja (b) como maneira de cristalizar o tempo livre em um Standard do infantilismo (os modos infantis), através das grandes mídias como o cinema e a televisão (diferente do lúdico em sentido amplo, que caracteriza a espontaneidade das crianças, os modos infantis de que se trata aqui corresponde ao lazer fabril, cujo comportamento limite é a jogatina como indústria, onde o brincar atende a uma produção).

h)       Certamente, o alcance desse Standard faz mais impactante a dessubjetivação e deixa os indivíduos e grupos mais subservientes, já que é a tal Standard dos modos infantis que se identificam os sujeitos/objetos em alguns de seus modos mais espessos, seguintes: (a) em sua incapacidade para perceber e pensar o que não é como eles mesmos; (b) em sua autossuficiência cega de sua própria existência; (c) em sua imposição da pura utilidade subjetiva.

5)       ►A cultura de massa organiza o tempo livre para fazer deste um standard do infantilismo.

a)       A crítica da cultura dominante examina a universal analogia de todo o produzido massivamente, coisas e homens, situando as correlações da ideologia futurista tirada da ficção do “Brave New World”. Ao tratá-las em modo sociológico como referências objetivamente possíveis, e delineando o quadro que corresponde à situação limite de certas involuções já existentes no cotidiano da civilização técnica, a crítica assinala que essa equiparação de coisas e homens se estende até a produção da consciência estandardizada de inúmeros homens pela communication industry.

b)       Quer dizer,o mundo da ideologia futurista assenta-se na tríade “Community, Identity, Stability”. Seus truques respectivos são: (a) todo o indivíduo está incondicionalmente subordinado ao funcionamento do todo, com o “World Controller” operando no sentido de que seja impossível a alguém defrontar-se com uma questão problemática; (b) as diferenças individuais têm sua anulação garantida pela Identity combinada à (c) Stability, como o final de toda a dinâmica social.

c)       Estendendo a estandardização à total pré-formação do homem, o mundo estático da negativa ideologia do futurismo assenta-se no “World Controller” e na tríade Community, Identity, Stability.

d)       A panacéia que efetua essa garantia de estática social, observada sociologicamente como estandardização, é o Conditioning.

6)       ►Neste ponto alcançamos o elemento central da descrição do complexo de impotência como alguma coisa que é produzida a partir do Conditioning.

a)        Tal “condicionamento” visa à produção de determinados reflexos, ou modos de comportamento, por modificações planejadas no mundo circundante, mediante o controle técnico das chamadas condições de vida.

b)       A ideologia do futurismo estende o controle à total pré-formação do homem, desde a geração artificial dos embriões e a direção técnica da consciência e do inconsciente, nos primeiros estágios da vida, até o “death conditioning”, isto é, um training que suprime das crianças o medo da morte, com o procedimento de fazê-las contemplar agonias, ao mesmo tempo em que se as faz degustar doces, para que sempre associem a ideia de morte aos mesmos.

c)       Na utopia negativa desse mundo gerado no Conditioning, se põe em relevo os seguintes aspectos, que se aplicam à domesticação como produção da docilidade na obediência:

d)       (a) o efeito final do Conditioning, como adaptação sobre si mesmo, é a interiorização e a aprovação da pressão e da opressão sociais por cima da tradição: “os homens se submetem a amar o que têm de fazer sem sequer saberem que isso é submissão” – assim se assegura subjetivamente sua felicidade e se preserva a ordem;

e)       (b) a penetração dessa ordem torna ultrapassadas todas as ideias de que a influência da sociedade no indivíduo seja uma influência mediada pela família doméstica e a psicologia;

f)        (c) como filhos da sociedade no sentido mais literal, os homens coincidem substancialmente com ela, tornados dóceis expoentes da totalidade coletiva e estando condicionados socialmente (no sentido em que os behavioristas exerciam a domesticação pela manipulação dos instintos), isto é, não simplesmente equiparados ao sistema dominante por um desenvolvimento posterior, mas em uma relação eternizada em nível biológico. Daí o complexo de impotência.

g)       A interpretação crítica é de que a ideologia do futurismo indica que a reprodução da estupidez, anteriormente realizada inconscientemente no ditame da mera miséria vital, está nas mãos da triunfal cultura de massa, uma vez eliminada aquela miséria.

h)       Impotência e Condicionamento

i)         Desta sorte, a miséria como fixação racional da irracional relação de classes que o complexo de impotência ressente, anuncia a superfluidade dessa relação mesma, a superação de seu caráter natural como ilusão na história descontrolada da humanidade, ficando a subsistência de classes para a diferenciação administrativa na distribuição do produto social.

j)        Tal é a imagem da utopia negativa ao manter os embriões e as crianças pequenas das castas inferiores em uma atmosfera rarefeita em oxigênio, como se os mantivesse na mesma atmosfera dos bairros de barracos, só que construídos artificialmente.

7)       ►A arcaica iloquacidade

a)       Ou seja, o complexo de impotência se revela na estupidez em que, deixada seu caráter supostamente “natural” para constar como dado na distribuição do produto social, a situação de miséria passa a ser reproduzida por mero condicionamento, na fixação racional da irracional relação de classes.

b)       Desta forma, o complexo de impotência se estende na classe superior: a consciência daqueles que desfrutam sua própria individuação está submetida à estandardização por causa de sua identificação com o in-group, isto é, por uma sorte de identificação heteropática que, ao invés de levar aos conteúdos da consciência coletiva, levam aos juízos pelo condicionamento (conditioning), estando o grupo constituído sobre a virtude de não entender, sobre o vazio de significação (o déjà vu se experimenta lá onde há ausência de significação). Tal é o circuito estúpido da hegemonia burguesa e financeira, que aponta unicamente a degradação da fala, a decadência do dom de exprimir o pensamento pela palavra.

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Mais informação sobre o desafio da desigualdade desde o ponto de vista da sociologia global veja abaixo o artigo de preparação ao próximo congresso mundial de sociologia da Associação Internacional de Sociologia-ISA:

XVIII ISA World Congress of Sociology 2014


[1]  Veja Adorno, Theodor W. (1903 – 1969): “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, pág.114. A imperturbabilidade a que se refere o termo ataraxia neste contexto tem mais a ver com desordem médica (dificuldade em conectar as emoções relacionadas com os efeitos de uma ação com a própria ação, Cf. Webster’s Online Dictionary) e menos com  doutrina filosófica, embora seja um procedimento para mostrar qual é o caminho que o mundo da comunicação e da indústria cultural reserva de modo efetivo e até
mesmo compulsório para se chegar ao estado de ausência de emoções idealizado pelos epicuristas. Mais informação no seguinte artigo: “Standardização e Ataraxia”.

[2] O complexo de impotência de que se trata nada tem a ver com a impotência que, no estudo das fases do desenvolimento psico-sexual – quando se nota a diferenciação do complexo de Édipo -, os psicoanalistas relacionam no final da amamentação, para designar a vivência do bebê, quando a mãe começa a substituir o peito e tem lugar o processo de separação mãe/filho. Atribui-se a Melanie Klein a descrição da vivência do bebê nesse processo de ruptura, como “fase depressiva”.

[3] Veja Adorno, Theodor W. (1903 – 1969): “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 págs. –  (em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft, Berlin, Frankfurt A.M. 1955), págs. 102, 103 sq.

[4] Veja Adorno, Theodor W. (1903 – 1969): “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 págs. –  (em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft, Berlin, Frankfurt A.M. 1955.

[5] T. W. Adorno assinala que a unidade de natureza e espírito, como tema central da filosofia burguesa, foi concebida na especulação idealista como a suprema reconciliação.